quinta-feira, 2 de junho de 2011

A PRODUÇÃO CULTURAL, SUA INDÚSTRIA, O YOUTUBE E O FANTÁSTICO

(Obs. A principal proposta desse texto é criticar veementemente a Academia).









Walter Benjamin (BENJAMIN, 1987) um dia disse que o cinema, aliado ao seu primoroso processo de construção e difusão, seria o modo de produção artístico primeiro e principal alvo de fomento na constituição de uma indústria da cultura. Theodor Adorno (ADORNO, 1947, 1997) colocou também que as mídias têm um papel fundamental nessa construção, graças a sua capacidade de difusão e interação.  
Fato. Desde que a escola de Frankfurt se propôs a pensar uma indústria da cultura, por eles chamada de Indústria Cultural, fica cada vez mais perceptível o papel da mídia na sociedade contemporânea: imbricar a rede de significações de produção (seja artística, pedagógica, enfim, significações de produção de processos de subjetivação) no sistema de mercado e consumo, salvo a grande possibilidade de significado desses termos. Consequentemente, a mídia hoje é uma produção de mercado, ela absorve tudo.
A mídia, no Brasil, encarada no seu símbolo maior de significância – considerando nesse artigo a Rede Globo de Televisão –, faz de sua pormenorização espetacular, uma seleção de programas e propagandas que ressignificam a realidade, referenciam a significação cultural à lógica de produção de mercado (vide a relação comercial/ibope) e, finalmente, legitima a cultura quando a reconhece semelhante ao sujeito (e a sua reprodução de vida) para a (e na) sociedade. A mídia televisiva, encarada em sua substancialidade e em primeiríssima mão tecnológica e mágica pela Rede Globo, tem um poder que nenhuma outra esfera social até hoje alcançou. Esfera essa até então analisada insuficientemente pelos professores do século XXI: o poder de conferir validade existencial aos processos de subjetivação do humano quando se legitima sua produção cultural.
A maioria das esferas institucionais e sociais que consolidam parte da construção do conhecimento, esferas extremamente importantes no processo de constituição da percepção do sujeito no mundo, a exemplo das universidades e das escolas, não conseguem chegar perto da capacidade de legitimação cultural da Rede Globo, considerando que a legitimação desta confere identificação do povo ao próprio povo enquanto sujeitos no mundo[1], consequentemente construindo sua identidade. Consequentemente a instituição escola, universidade, e demais esferas de produção do conhecimento atravessam extrema crise de valores e existência, como quando perguntou-nos Michael Young (2007): “para que servem as escolas?”, ou quando nos perguntou Marisa Vorraber Costa (2006): “para que serve a escola hoje?”.
Contudo, sabemos que a instância midiática – como o próprio adjetivo assim a classifica: uma esfera sem limites – está para além da televisão e dos impressos. Consideramos, então, que a cristalização da discussão contemporânea sobre culturalidade permeia a seguinte circunscrição: unicidade, unidade, universalismo; coexistindo com a simulação, e intervindo com pluralismo, diversidade, diferença; num nível político-econômico macro espacial e temporal chamado globalização. Nela, o grande território de vivência intercultural é mesmo a grande rede virtual, renegando as artes e a micro-cultura e, por vezes, transformando-as apenas em ideia ou em conceito e comercializando-as enquanto meras ideias e conceitos (vide o exemplo do mercado de produção do conhecimento; o mercado da arte contemporânea; ou mesmo o mercado de produtos virtuais que são comprados e pagos em dinheiro, através de boletos bancários físicos, de papel, referentes à vida de personagens virtuais com famílias virtuais, casas virtuais, amigos virtuais, divulgados em jogos nas redes de relacionamento).
Essa discussão sobre singularidade e universalismo, nominalismo, nomadismo, e, de quebra, anonimismo (o sujeito anônimo, o mercado anônimo, a identidade anônima por excessivamente fragmentada), trás à tona outra questão imbricada nessa verborragia acadêmica: resistência. Para não perderem sua identidade de sujeitos em um espaço de pertencimento, espaço esse que os caracterizaram enquanto sujeitos pertencentes ao mundo da vida e possuidores de identidade construída em um espaço-tempo específico de referência, a globalização reflete uma questão um tanto polêmica: a necessidade extrema da mistura.
A multiculturalidade e a interculturalidade resultam primeiros reflexos de uma transformação identitária. O todo que se transforma em um limite fragmentado e que se refronteiriza, e não ganha somente, porque também perde, também cede. Perde porque entendemos uma fusão, como geradora de perdas e ganhos geram de insegurança e incertezas, que por sua vez geram os conflitos.
“Não amo nações, amo pessoas”. Esse aforismo do sociólogo Renato Feitosa (FEITOSA, 2010) reflete essa questão de forma ainda mais clara: não somos mais espaços territoriais: somos espaços temporais, inseridos em um contexto macro de relações, e a grande rede virtual é o maior exemplo disso.
Jameson (JAMESON, 2011), em uma palestra cedida à Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, situou, em um nível macro, uma questão que, até então, geralmente é situava apenas em nível micro. Ele nos disse que no mundo afora, a forma mais clara de resistência a esse movimento de singularidade dos sujeitos é a formação dos regionalismos. Discutimos isso acima. Mas agora me atrevo a complementar o nos disse Jameson, dizendo que os sujeitos desses fundamentalismos regionalistas (tanto o talibã quando o cangaceiro) buscam desesperados por uma identidade comum de pertencimento.
Acerca de pertencimento, percebemos que a grande rede virtual, a internet, situou nosso espaço-mundo, nosso espaço físico, em uma mistura de culturas, diluindo as especificidades identitárias dos povos a partir da desidentificação de grupo, gerando, entre outras consequências, uma crise dos sentimentos e a percepção característica do que se chama de efemeridade. E outras palavras: a rede transforma nosso espaço físico em espaço efêmero, virtual. Hoje é impossível viver sem a internet.
Para haver um sistema legitimado de significações denominado cultura, enquanto sistemas de significação (Willians, 1969), é necessário que os detentores da ordem do discurso legitimem sistemas enquanto sistemas válidos, conferindo poder às representações sociais consequentes desse movimento de misturas, consequente desse momento de globalização, desse tempo pós-moderno, desse tempo das fragmentações e inter-relações.
Aqui que entra a relação que faço no título do capítulo, com o objetivo de inserir o leitor em uma discussão sobre apropriação da mídia. Quando o espaço e as misturas se dão em nível territorial espacial físico, essa relação de legitimidade cultural geralmente é conferida pelo tempo, pela história, pela tradição. A indústria cultural assume o papel de levantar e oferecer à produção artística (à música, à arte, etc.) um espaço para proporcionar identificação do sujeito frente ao coletivo, frente à sociedade. Mas perceba que o chavão “de uns tempos pra cá” – como se diz –, “qualquer coisa que ia pra televisão, logo se tornava famosa” porque se tornava conhecida por todos, mas que tão logo se escondia posteriormente, quando não se firmava no chão físico da cultura, no chão firme da tradição e da história do mundo fora da televisão, agora com o imediatismo temporal da velocidade, da história e da necessidade de tradicional para legitimação, saímos da meritocracia da TV e passamos ao instantâneo fotográfico cultural: a título de exemplo, no dia 29 de maio de 2011, o programa Fantástico exibiu um vídeo de uma banda pop paulistana chamada A Banda Mais Bonita da Cidade[2], uma música chamada Oração (disponível no link a seguir: <http://www.youtube.com/watch?v=QW0i1U4u0KE>), e que, a nível macro era bem pouco conhecia, mas que já há apenas poucos dias antes da transmissão do Fantástico, o vídeo tinha sido colocado no youtube e alcançado uma reverberação espantosa, que o próprio Fantástico se sentiu na obrigação de se apropriar da produção dos sujeitos (apropriação no sentido de transmiti-la em rede nacional) e, consequentemente, legitimá-la. Legitimava porque o sujeito enquanto público da arte pop paulistana geralmente se identifica com o que é produzido nos espaços de referência da mídia sudestina. Esse evento me fez refletir sobre dois pontos:

1.                           A mídia, no sentido geral, é a instância que melhor domina e controla o poder de legitimar a cultura, e, a Rede Globo, sabendo desse potencial próprio que a pertence, imediatamente se apropria da produção, para que esta, enquanto produção artística, e, consequentemente, cultural fosse, além de conhecida pelo youtube – a maior ferramenta de comunicação áudio-visual do mundo atualmente – fosse também (e principalmente) conhecida pela Rede Globo (a maior rede midiática de transmissão televisiva no Brasil).

2.                           Esse movimento de legitimação cultural a nível nacional (Rede Globo), consequente da transmissão em nível mundial (internet), pelo youtube, significa que quem tem o poder de controlar a produção do discurso da mídia televisiva entende suficientemente bem o que está acontecendo com o espaço-tempo da comunicação em um sentido generalizado, e baseado na percepção de que esse espaço-tempo internet é extremamente maior, além de muito mais democrático, a televisão trabalha para acompanhar a produção da internet e absorvê-la até onde pode. Logo, os detentores do poder do discurso midiático percebem a necessidade de estar, em nível nacional, com sua transmissão paralela a essa produção virtual. É necessário estar perto dessa produção e de legitimá-la na televisão porque, se a Rede Globo não faz isso, ela pode acabar perdendo boa parte de seu potencial de status de legitimadora da cultura em nível nacional, consequentemente perder um grande controle/mercado de luxo, mercado esse que a mídia televisiva confere há tanto tempo.

Conclusão rasa e básica desse fato: a televisão está acompanhando tudo de perto e absorvendo tudo, porque serve de legitimadora da cultura do povo porque o representa.

Posto isso, voltemos à discussão das instituições de produção de conhecimento: perceber que a universidade, as escolas; enfim, os espaços que proporcionam construir e distribuir conhecimento necessário à formação do sujeito ético e potencialmente competente para agir criticamente no mundo, está se distanciando da capacidade de significar referência a esse sujeito, a sua sociedade, e a sua produção, considerando a velocidade em que se processam as transformações tecnológicas contemporâneas, principalmente depois da internet. Outro exemplo, a fim de secarmos quaisquer dúvidas sobre essa questão da capacidade midiática da internet, é só observar o exemplo do Google, onde todas as respostas estão lá, prontas e, melhor ainda, passíveis de intervenção, inacabadas, proporcionando-nos interagir direta e rapidamente na produção posta na rede e, consequentemente, interferir na verdade construída lá e divulgar nossa verdade. Esquecemos, nesse contexto, que na esfera da produção do conhecimento, as perguntas e as dúvidas são, muitas vezes, mais necessárias que as respostas e as instituições de produção e distribuição do conhecimento estão, de certa forma, negligenciando a potencialidade e a influência da internet na vida contemporânea.
Néstor García Canclini (2004) observa que hoje existe um abismo entre a compreensão de espaço e tempo quando tratamos do mundo acadêmico (leia-se também escolar). Canclini coloca que referência enquanto conferência (validade legítima para) é extremamente necessária para que possamos embasar pesquisas e ações acadêmicas (e escolares), a fim de se produzir novos conhecimentos e proporcionar, aos já produzidos, movimentos seguros entre os sujeitos que ali atuam ressignificando-os.
Entendo que o movimento de transformação nos campos institucionais de produção, administração e distribuição do conhecimento é muito mais lento do que o da mídia, ou quase tão complexo quando a grande rede, porque ao tratarmos dessas instituições, tratamos principalmente de espaços físicos e de muitos mais sujeitos e, principalmente, com poderes muito delicados.
Entendendo isso, quero me fazer entender e deixar claro que não estou propondo que a universidade e a escola devam acompanhar o movimento das mídias. Não é isso. Mas, sendo você o menos ou o mais poderoso detentor da ordem do discurso dessas instituições de produção, administração e distribuição específica do conhecimento, consideraria então que: se a academia absorver, debater, verificar, avaliar; enfim, pesquisar cada vez mais e mais acerca dessa produção do instantâneo e do efêmero e as possibilidades geradas por esse movimento, sua possibilidade de intervenção centrígufa e centrípeta na sociedade do conhecimento, focando a possibilidade de como acompanhar o movimento de produção cultural dos sujeitos no mundo, haverá mais chances de perceber quais maneiras estão sendo efetivadas nesse sentido e a capacidade dessas instituições, para conferir a mínima legitimidade a qualquer conhecimento que seja, explanará cada vez mais, e não se perderá na própria efemeridade das discussões? Concorda quando dizemos que: enquanto isso, a mídia no sentido geral, atualiza-se e se renova cada vez mais rápido e melhor, consequentemente, ganhando sempre mais poder de representação do sujeito na sociedade ao acompanhar o ritmo das produções culturais no mundo ocidental; ou melhor: fazendo parte desse ritmo, ela sempre será mais interessante e menos apática que as escolas?
Não estou aqui defendendo que a universidade tem que abarcar tudo e todos sem critérios de escolha ou sem se preocupar com a qualidade da produção do conhecimento. Não é isso. Mas, veja o fato citado abaixo:

O antropólogo James Clifford (CLIFFORD apud CANCLINI, 2004, p. 151), planejou pegar a história de ação de um hacker e transformá-la em uma pesquisa de campo a fim de fundamentar uma tese. Ora, se hoje tudo está na rede e tudo não funciona sem ela, nada mais justo do que considerá-la também como uma possibilidade de campo de pesquisa, concorda? Clifford então propõe que a intervenção do hacker, que vai e volta, entra em computadores de empresas, pessoais, enfim; explora o tempo e o espaço do mundo virtual em sua substância, poderia ser uma pesquisa de campo válida para fundamentar uma tese acadêmica. Então Clifford vai até alguns antropólogos em uma universidade, e pergunta se eles considerariam essa pesquisa uma pesquisa de campo. Então eles respondem: talvez. Logo Clifford pergunta se eles orientariam essa pesquisa. Então, fatalmente respondem: não[3].

Ora, o que está implícito nessa atitude? O que é uma pesquisa de campo. Primeira revisão metodológica que deveria ser iniciada na academia. Se o conceito de território mudou com o advento da rede, porque a rejeição dos antropólogos em orientar tal projeto de tese? Em resposta, os antropólogos que foram questionados sobre isso alegaram que, para haver uma orientação desse tipo, necessitariam de referências sobre o assunto, porque referências conferem legitimidade à pesquisa. Nesse sentido, concordo com a resposta deles. Mas discordo da posição.
A maioria dos acadêmicos das chamadas ciências humanas, estabelece que as relações diretas entre os vários saberes e conhecimentos são extremamente necessárias para que essas referências citadas sejam criadas. Por que então não assumem o risco de pleitear uma pesquisa desse tipo? Essa é a questão que quero problematizar.
Concordo com Canclini quando ele propõe que, enquanto mundo intercultural, inevitavelmente, cada vez mais seremos sujeitos interculturais. Aí está a necessidade de sairmos dos invólucros e de afastarmos as vaidades de donos de gabinetes e bibliotecas repletas de verdades legitimadamente absolutizadas, porque estamos precisando dar outros (e até mesmo novos) e constantes primeiros passos para. Faz-se cada vez mais premente essa necessidade de recomeçar. Para onde vai a academia (e a escola?) se não conseguir conferir, legitimar, referenciar essa nova produção cultural tão presente e veloz? Se somos dos mais importantes pólos de produção de conhecimento científico, somos nós que temos que (re)começar, que dar o primeiro passo, mesmo que por incerto. A Indústria Cultural já interfere absolutamente enquanto faz seu papel. Aqui entram os cuidados com a ambivalência e as relações com a teoria e com o pnesar/ser/fazer pós-moderno: não precisamos ser uma indústria de conhecimento, igual à indústria cultural. Mas precisamos nos aproximar das produções e das realidades dos sujeitos sociais, igual à indústria cultural. Dois pontos, como quem a ambivalente conceituação contemporânea se assemelha, um ruim, e um bom, mas, talvez, não estamos escolhendo direito.
Entendo essa discussão como um apelo por certo desesperado à obrigatoriedade de percebermos a necessidade e a importância das relações interdisciplinares na academia, pois acreditamos que só seremos absorvíveis quando formos capazes de nos misturarmos.

Dado que millones de personas no son ya sujetos de tiempo completo de una sola cultura, debemos admitir que la versatilidad de las identificaciones y las formas de tomar posición requierem metodologías híbridas. Pero hibridación no es indeterminación total, sino combinación de condicionamientos específicos (CANCLINI, 2004, p. 151).

A pós-modernidade (ou modernidade tardia, como queira) é intercultural. Logo, somos sujeitos cada vez mais interculturais. Consequentemente é cada vez mais perceptível a extrema necessidade de metodologias híbridas de ensino. Precisamos dar mais atenção à necessidade da interdisciplinaridade.


[1] Dasein. Sobre esse conceito, ver: HEIDEGGER referência
[2] Meu objetivo aqui não é crítica musical. Simplesmente pretendo verificar uma ínfima parte do processo de legitimação da arte ou da cultura no movimento da indústria cultural nos dias de hoje, dado pela TV.
[3] James Clifford plantea, por ejemplo, se alguien que estudaria la cultura de los espías de ordenadores (hackers) podría lograr que su trabajo se aceptase como tesis de antropologia no habiendo entrado nunca em contacto físico con um espía. ?Podrían considerarse los meses, incluso años, pasados en la Red como trabajo de campo? (CANCLINI, 2004, p. 150).    


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