sábado, 24 de setembro de 2011

Descolonização ou Descolonialização?




Resposta ao texto "É possível descolonizar o pensamento?", de Raphael Tenório, disponível em: http://www.amalgama.blog.br/09/2011/descolonizar-o-pensamento/




Como nos despregarmos desse maldito pensamento colonial que nos persegue? Resposta? De várias, tenho uma: pegar pelo que é falado, e intervir na SIMBOLIZAÇÃO das relações de poder.

Quando dizemos respeito aos sentidos de colonização, as causas e efeitos desse dito em nós, entre a repetição e a diferença, torna possível percebermos a insatisfação. Será ela?

O que é ela? Onde está ela? Fora dela, os sentidos já ditos se constituem ao longo de uma história que já não temos mais acesso e que “FALAM” EM NÓS. Cada vez que dizemos colonização – ou nos significamos em relação a essa história –, esses sentidos de insatisfação retornam. E podem derivar também de outras fontes de significação, produzindo novos sentidos, efeitos de um JOGO da língua, na forma de comunicar, inscrita numa materialidade histórica.

Encontraremos primeiro o que é a insatisfação e o que ela significa. Onde ela está e como funciona no silêncio do que dizemos. Assim como o som, o silêncio é tão necessário.

Contar a História ao avesso, ou noutra língua, numa língua produzida por quem participa da construção, e não só do ponto de vista de quem analisa e diz verdade. Esse é um problema que problematiza essa colonização. Então, se qualquer fato é tão interessante quanto outro, porque não merecem ser enfatizados e transcritos todos na mesma medida?

R. Tenório nos disse o seguinte: “[...] devemos nossa racionalidade aos europeus. Mas a nossa infância já se foi”. Era exatamente nessa questão que queria chegar! É nesse sentido que acredito caminharmos mais para uma espécie de "des-colonialização" do que propriamente por uma des-colonização.

Porque descolonizar significa, acredito, sacrificar o que veio de memória com o processo de termos sido (e em certos sentido, ainda sermos) uma colônia. Essa lembrança não se apaga, e de todo, também nos é necessária, afinal, é ela que sustenta os embates pela afirmação, e consequentemente, provoca nossas possíveis construções identitárias. Lembrar de onde viemos é sempre muito importante, mas não podemos esquecer nenhum detalhe.

Concordo com Maurice Halbwachs quando ele diz que “a lembrança é, em larga medida, uma reconstrução do passado, com a ajuda de dados emprestados do presente”. Logo, nossa história é sim colonial. Mas isso não significa que devemos ser colônias para sempre.

A lembrança é preparada por outras reconstruções realizadas em épocas anteriores, e de onde a imagem de outrora se manifestou já bem alterada. Precisamos de nossa “Idade”, que nem “média” considero mesmo que seja mais (nossa Idade Média). Mas compreendo o sentido do analogismo. As lembranças sempre falarão dentro da gente. E essa fala de dentro da gente é que movimenta nossas ações.

Dizer que vamos esquecer que fomos colonizados é mentir para nós mesmos, e essa é a pior cegueira. Nós fomos, e ponto. Fomos. Acredito que devemos mesmo é perceber que não somos mais. Veja como soa diferente. Somos filhos da colonização, mas não somos mais colônia. E se devemos algo a ela, que sejam nossas formas de pensar nós mesmos. Fora isso, não devemos mais nada aos “descobridores”. Pelo contrário: eles nos devem muito mais, pelo fato do processo colonizador ter sido como foi.

Descolonialização: o sentido desse neologismo sustenta mais possibilidades para, porque não esquece nossa herança, mas nos faz perceber que não precisamos mais ser dependentes dela. Dessa herança, só para negar alguns algos que se sustentam mal na nossa construção identitária.

Descolonializar pra mim é isso: perceber que não somos mais colônia e que temos cabedal suficiente para andarmos com nossos próprios pés. E penso ainda outra coisa: temos capacidade de caminhar nossos próprios passos, sejam intelectuais e/ou científicos, ou não. A ciência e a academia não salvam o mundo. Mas são muito importantes.

No mundo, somos brigas e rimas. E é assim que conquistamos a nós mesmos. Agora, para que a transformação saia do forno, precisa haver um mínimo de insatisfação, porque se “tudo está bem”, então não vejo porque mudar.

Acho que devemos sair das nossas zonas de conforto, como disse o ator mexicano Edgar Vivar dia desses numa entrevista: “quando saímos da nossa zona de conforto, percebemos o que é viver, percebemos a magia da vida”. Por quê? Porque desafiamos mais, construímos mais, e aprendemos mais, porque nos transformamos.

Paulo Leminski já dizia noutra hora: tema o que não é transformação. Nesse sentido, o conforto talvez seja só útil, mas não será tão bom assim.




Um comentário:

Thiago Alex disse...

É Fel vivemos em mesquinha satisfação com tudo que nos minimiza. Há um legado que temos que explorar e não ao qual temos que nos render ou estar submetidos. A capacidade de seguir adiante sem o fio de Ariadne aterroriza, causa vertigem. O que amedronta é não saber o que fazer com que há de riqueza no que tanto nos estigmatiza. Não somos mais colonizados, e temos que cuidar de nos descolonializar. Até nossa suprema independência é parte de todo um processo de subjetivação. Vivemos em função de tudo que foi criado em função de nós: ex. a escola não existe em função de nós, existimos em função da escola; os shows, os bares espalhados pelas cidades não existem em função de nós, existimos em função deles; a cerveja, o cigarro, o sexo, a maconha não nos serve, somos seus vassalos. Quando pensamos que estamos sendo sujeitos da ação, somos simplesmente objetos, acessórios das coisas, ou mais sujeitos do que pensamos. Boa reflexão a sua. Temos que passar menos tempos em bares jogando dominó. Rsrs Vamos por nossa idéias no papel.