.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Eleição 2010: cenários e perspectivas
.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
"Queremos Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas"

"Queremos Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas"
O presidente eleito do Uruguai, José "Pepe" Mujica, reuniu-se com um grupo de intelectuais em dezembro de 2009 e fez alguns pedidos a eles: que contagiem todo o povo uruguaio com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual, e com o inconformismo. Mujica propõe também uma revolução na educação. "Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora".
Discurso proferido em dezembro de 2009 pelo presidente eleito da República do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano (El Pepe), dirigente histórico e fundador do Movimento de Libertação Tupamaros:A vida tem sido extraordinariamente generosa comigo. Ela me deu inúmeras satisfações, mais além do que jamais me atrevera a sonhar.Quase todas são imerecidas. Mas nenhuma é mais que a de hoje: encontrar-me aqui agora, no coração da democracia uruguaia, rodeado de centenas de cabeças pensantes.Cabeças pensantes! À direita e à esquerda.
Cabeças pensantes a torto e a direito, cabeças pensantes para atirar para cima.Vocês se lembram do Tio Patinhas, o tio milionário do Pato Donald que nadava em uma piscina cheia de moedas? Ele tinha uma sensualidade física pelo dinheiro.Gosto de me ver como alguém que gosta de tomar banho em piscinas cheias de inteligência alheia, de cultura alheia, de sabedoria alheia.Quanto mais alheia, melhor. Quanto menos coincide com meus pequenos saberes, melhor.O semanário Búsqueda tem uma frase charmosa que usa como insígnia:“O que digo, não o digo como homem sabedor, mas sim buscando junto com vocês”.Por uma vez estamos de acordo. Sim, estaremos de acordo.
O que digo, não o digo como chacareiro sabichão, nem como trovador ilustrado. Digo-o buscando com vocês.O digo, buscando, porque só os ignorantes acreditam que a verdade é definitiva e maciça, quando ela é apenas provisória e gelatinosa. É preciso buscá-la porque ela anda correndo brincando de esconde-esconde. E pobre daquele que empreenda essa caça sozinho. É preciso fazê-la com vocês, com aqueles que fizeram do trabalho intelectual a razão de sua vida. Com os que estão aqui e com os muito mais que não estão. De todas as disciplinas. Se olharem para trás, seguramente encontrarão algumas caras conhecidas porque se trata de gente que trabalha em espaços de trabalho afins. Mas vão encontrar muito mais rostos desconhecidos porque a regra desta convocação foi a heterogeneidade.
Aqui estão os que se dedicam a trabalhar com átomos e moléculas e os que se dedicam a estudar as regras da produção e da troca na sociedade. Há gente das ciências básicas e de sua quase antípoda, as ciências sociais: gente da biologia e do teatro, da música, da educação, do direito e do carnaval. Há gente da economia, da macroeconomia, da microeconomia, da economia comparada e até alguns da economia doméstica.
Todas cabeças pensantes, mas que pensam distintas coisas e podem contribuir desde suas distintas disciplinas para melhorar este país. E melhorar este país significa muitas coisas, mas entre as prioridades que queremos para esta jornada, melhorar o país significa impulsionar os processos complexos que multipliquem por mil o poderio intelectual que aqui está reunido. Melhorar o país significa que, dentro de vinte anos, o Estádio Centenário não seja suficiente para abrigar um ato como este, pois o Uruguai estará cheio, até as orelhas, de engenheiros, filósofos e artistas. Não é queiramos um país que bata os recordes mundiais pelo puro prazer de fazê-lo. É porque está demonstrado que, uma vez que a inteligência adquira um certo grau de concentração em uma sociedade, ela se torna contagiosa.Inteligência distribuída.
Se, um dia, lotarmos estádios de gente formada será porque, na sociedade, haverá centenas de milhares de uruguaios que cultivaram sua capacidade de pensar. A inteligência que traz riqueza para um país é a inteligência distribuída. É a que não está só guardada nos laboratórios ou na universidade, mas sim anda pela rua. A inteligência que se usa para plantar, para tornear, para manejar uma máquina, para programar um computador, para cozinhar, para atender bem um turista é a mesma inteligência. Alguns subiram mais degraus do que outros, mas se trata da mesma escada. E os degraus de baixo são os mesmos para a física nuclear e para o manejo de um campo. Para tudo é preciso o mesmo olhar curioso, faminto de conhecimento e muito inconformista. Acabamos sabendo porque antes ficamos incomodados por não saber.
Aprendemos porque temos comichão e isso se adquire por contágio cultural desde quando abrimos os olhos ao mundo.Sonho com um país onde os pais mostrem a pastagem a seus filhos pequenos e digam: “Sabem o que é isso? É uma planta processadora da energia do sol e dos minerais da terra”. Ou que lhes mostrem o céu estrelado e façam com que pensem nos corpos celestes, na velocidade da luz e na transmissão das ondas. E não se preocupem que esses pequenos uruguaios vão seguir jogando futebol. Só que, lá pelas tantas, enquanto vêem a bola picar, podem pensar ao mesmo tempo na elasticidade dos materiais que a fazem rebotar. Capacidade de interrogar-seHavia um ditado: “Não dê peixe a uma criança, ensina-a a pescar”. Hoje deveríamos dizer: “Não dê um dado a uma criança, ensina-a a pensar”.
Do jeito que vamos, os depósitos de conhecimento não vão estar mais situados dentro de nossas cabeças, mas sim fora, disponíveis para buscá-los na internet. Aí vai estar toda a informação, todos os dados, tudo o que se sabe. Em outras palavras, aí vão estar todas respostas. Mas não vão estar todas as perguntas. O diferencial vai estar na capacidade de se interrogar, na capacidade de formular perguntas fecundas, que provoquem novos esforços de investigação e aprendizagem.E isso está bem no fundo, marcado quase no nosso de nossa cabeça, tão fundo que quase não temos consciência.Simplesmente aprendemos a olhar o mundo com um sinal de interrogação e essa se torna nossa maneira natural de olhar para o mundo. Adquirimos essa capacidade muito cedo e ela nos acompanha por toda a vida. E, sobretudo, queridos amigos, ela contagia.Em todos os tempos foram vocês, os que se dedicam à atividade intelectual, os encarregados de espalhar a semente. Ou para dize-lo em palavras que nos são muito caras: vocês têm sido os encarregados de acender a necessária inquietação.
Por favor, vão e contagiem. Não perdoem a ninguém.Necessitamos de um tipo de cultura que se propague no ar, entre os lugares, que se cole nas cozinhas e até nos banheiros. Quando conseguirmos isso, teremos ganho a partida quase para sempre. Porque se quebra a ignorância essencial que enfraquece muita gente, uma geração após a outra.
O conhecimento é prazerPrecisamos, antes de mais nada, massificar a inteligência, para nos tornarmos produtores mais potentes. Isso é quase uma questão de sobrevivência. Mas nesta vida não se trata só de produzir: também é preciso desfrutar. Vocês sabem melhor do que ninguém que, no conhecimento e na cultura, não há só esforço, mas também prazer. Dizem que as pessoas que correm pelas ruas chegam num ponto em que entram numa espécie de êxtase onde já não existe o cansaço e só fica o prazer. Creio que ocorre o mesmo com o conhecimento e a cultura. Chega um ponto onde estudar, investigar e aprender já não é um esforço, mas um puro deleite.
Que bom seria que esses manjares estivessem a disposição de muita gente! Que bom seria se, na cesta de qualidade de vida que o Uruguai pode oferecer a sua gente, houvesse uma boa quantidade de consumos intelectuais. Não porque seja elegante, mas sim porque é prazeroso. Porque se desfruta com a mesma intensidade com a qual se pode desfrutar de um prato de talharim.Não há uma lista obrigatória das coisas que nos tornam felizes! Alguns podem pensar que o mundo ideal é um lugar repleto de shopping centers. Nesse mundo, as pessoas são felizes porque todos podem sair cheios de sacolas com roupas novas e caixas de eletrodomésticos. Não tenho nada contra essa visão, só digo que ela não é a única possível.
Digo que também podemos pensar em um país onde a gente escolhe arrumar as coisas ao invés de jogá-las fora, onde se prefere um carro pequeno a um grande, onde decidimos nos agasalhar melhor ao invés de aumentar a calefação.Esbanjar não é o que fazem as sociedades mais maduras. Vejam a Holanda e as cidades repletas de bicicletas. Aí as pessoas se deram conta de que o consumismo não é a escolha da verdadeira aristocracia da humanidade. É a escolha dos farsantes e dos frívolos.
Os holandeses andam de bicicleta, eles as usam para ir trabalhar, mas também para ir a concertos ou aos parques. Chegaram a um nível em que sua felicidade cotidiana se alimenta de consumos materiais como intelectuais.De modo que, amigos, vão e contagiem todos com o prazer pelo conhecimento. Paralelamente, minha modesta contribuição será fazer com que os uruguaios andem de pedalada em pedalada.InconformismoEu lhes pedi antes que contagiem os outros com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual. E agora aumento o pedido e lhes rogo que contagiem também com o inconformismo. Estou convencido que este país necessita uma nova epidemia de inconformismo, como a que os intelectuais geraram décadas atrás.No Uruguai, nós que estamos no espaço político da esquerda somos filhos ou sobrinhos daquele semanário Marcha, do grande Carlos Quijano. Aquela geração de intelectuais impôs-se a si mesma a tarefa de ser a consciência crítica da nação. Andavam com alfinetes na mão, estourando balões e desinflando mitos.Sobretudo o mito do Uruguai multicampeão.
Campeão da cultura, da educação, do desenvolvimento social e da democracia. Acabamos não sendo campeões de nada. Menos ainda nestes anos, nas décadas de 50 e 60, onde o único recorde que obtivemos foi ser o país da América Latina que menos cresceu em 20 anos. Só o Haiti nos superou neste ranking.
Esses intelectuais ajudaram a demolir aquele Uruguai da siesta conformista.Com todos seus defeitos, preferimos esta etapa, onde estamos mais humildes e situados na real estatura que temos no mundo. Mas precisamos recuperar aquele inconformismo e colocá-lo embaixo da pele do Uruguai inteiro.
Antes eu dizia a vocês que a inteligência que serve a um país é a inteligência distribuída. Agora, digo que o inconformismo que serve a um país é o inconformismo distribuído. Aquele que invade a vida de todos os dias e nos empurra a perguntar-nos se o que estamos fazendo não pode ser feito melhor. O inconformismo está na própria natureza do trabalho de vocês. Precisamos que ele se torne uma segunda natureza de todos nós.Uma cultura do inconformismo é aquela que não nos deixa parar até que consigamos mais quilos por hectare de trigo ou mais litros por vaca leiteira.
Tudo, absolutamente tudo, pode ser feito de um modo um pouco melhor do que foi feito ontem.
Desde arrumar a cama de um hotel até produzir um circuito integrado.Necessitamos de uma epidemia de inconformismo. E isso também é cultural, também se irradia desde o centro intelectual da sociedade para sua periferia. É o inconformismo que fez com que pequenas sociedades ganhassem respeito sobre o que fazem. Aí estão os suíços, meia dúzia de gatos pintados como nós, que se dão o luxo de andar por aí vendendo qualidade suíça ou precisão suíça. Eu diria que o que vendem de verdade é inteligência e inconformismo suíços, que estão esparramados por toda a sociedade.
A educação é o caminhoAmigos, a ponte entre este hoje e este amanhã que queremos tem um nome e se chama educação. É uma ponte longa e difícil de cruzar. Porque uma coisa é a retórica da educação e outra coisa é nos decidirmos a fazer os sacrifícios necessários para lançar um grande esforço educativo e sustentá-lo no tempo. Os investimentos em educação são de rendimento lento, não iluminam nenhum governo, mobilizam resistências e obrigam o adiamento de outras demandas.Mas é preciso seguir esse caminho. Devemos isso a nossos filhos e netos. E é preciso fazê-lo agora, quando ainda está fresco o milagre tecnológico da internet e se abrem oportunidades nunca antes vistas de acesso ao conhecimento.
Eu me criei com o rádio, vi nascer a televisão, depois a televisão a cores, depois as transmissões por satélite. Mais tarde, passaram a aparecer quarenta canais em minha TV, incluindo aí os que transmitiam direto dos Estados Unidos, Espanha e Itália. Depois vieram os celulares e os computadores que, no início, serviam apenas para processar números. Em cada um destes momentos, fiquei com a boca aberta. Mas agora com a internet se esgotou a minha capacidade de surpresa. Sinto-me como aqueles humanos que viram uma roda pela primeira vez. Ou que viram o fogo pela primeira vez.Sentimos que nos tocou a sorte de viver um marco na história. Estão sendo abertas as portas de todas as bibliotecas e de todos os museus. Todas as revistas científicas e todos os livros do mundo vão estar a nossa disposição. E, provavelmente, todos os filmes e todas as músicas do mundo. É perturbador.
Por isso precisamos que todos os uruguaios e, sobretudo, todos os pequenos uruguaios saibam nadar nessa corrente. Precisamos subir essa corrente e navegar nela como um peixe na água. Conseguiremos isso se a matriz intelectual da qual falávamos antes estiver sólida. Se soubermos raciocinar em ordem e fazermos as perguntas que valem a pena. É como uma corrida em duas vias: lá em cima no mundo o oceano de informação; aqui embaixo, nós, preparando-nos para a navegação transatlântica.Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora. Não podemos deixar nossas crianças de fora.
Essas são as ferramentas que nos habilitam a interagir com a explosão universal do conhecimento. Este mundo não simplifica a nossa vida: complica-a. Nos obriga a ir mais longe, a ir mais fundo na educação. Não há tarefa maior diante de nós.O idealismo ao serviço do EstadoQueridos amigos, estamos em tempos eleitorais. Em benditos e malditos tempos eleitorais. Malditos, porque nos põe a brigar e a disputar corridas entre nós. Benditos, porque nos permitem a convivência civilizada. E mais uma vez benditos porque, com todas as suas imperfeições, nos fazem donos do nosso próprio destino. Aqui todos aprendemos que é preferível a pior democracia à melhor ditadura.Nos tempos eleitorais, todos nos organizamos em grupos, frações e partidos, nos cercamos de técnicos e profissionais e desfilamos frente ao soberano. Há adrenalina e entusiasmo. Mas depois, alguém ganha e alguém perde. E isso não deveria ser um drama.
Com estes ou com aqueles, a democracia uruguaia seguirá seu caminho e irá encontrando as fórmulas rumo ao bem-estar. Seja qual for o lugar que nos toque, ali estaremos colocando a tarefa sobre os ombros. E estou seguro de que vocês também. A sociedade, o Estado e o Governo precisam de seus muitos talentos. E precisam mais ainda de sua atitude idealista. Nós que estamos aqui, entramos na política para servir, não para nos servir do Estado. A boa fé é a nossa única intransigência. Quase todo o resto é negociável. Muito obrigado por acompanharem-me.
Pepe Mujica
.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Da arte intersubjetiva à intercorporeidade

Uma arte concreta não é uma arte feliz. É preciso manter a percepção perto da experiência, sem, no entanto, limitar-se ao empírico. Restituir cada experiência do ser e da natureza do ente, com o que foi e está marcado de anteriormente.
Essa percepção deve buscar a cifra anterior à atividade reflexiva. Logos do mundo estético, do mundo sensível, da imagem, deve ser unidade indivisa do corpo e das coisas. Unidade que desconhece ruptura entre sujeito e objeto.
A arte contemporânea deve criticar a produção estruturada numa filosofia subjetivista e numa ciência objetivista. Deve se desmembrar dessa visão humanista rasa .
Porque na filosofia subjetivista, o sujeito se apropria da realidade exterior. É cognoscente a ela, objetivando sua realidade criada na idéia (representação de, como quis Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Representação). O sujeito é heterogêneo à realidade de si, criada pela idéia em representação de suas necessidades para organização própria da vida em grupo.
E também porque a ciência objetivista outorga ao cognoscente o poder de recriar a relação da realidade com o próprio sujeito reduzindo essa realidade à fugalidade, numa guerra de conceitos prisionais e modeladores, primando por uma inconsciente infelicidade disfarçada de aparente satisfação.
Aqui reencontramos o velho tecnicismo liberal pós-Terceira Revolução Industrial. Está ai, permanente na construção cultural pós-moderna. É essa percepção que permeia a lógica cultural do sistema capitalista hoje (para um maior aprofundamento do assunto, indico Fredric Jameson em Pós-modernismo: a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio).
Schopenhauer trata dessa questão em relação à construção do amor no sujeito em função de uma sentimentalidade não construída da racionalidade, mas sim já presente nas raízes do seres como necessidade fisiológica de reprodução somada à necessidade de afeto e atenção. Trata ontologicamente o termo amor (e toda sua carga filosófica).
Subjetivismo e objetivismo, idealismo e empirismo, metafísica e positivismo, são dicotomias que preservam a mesma fonte: a separação do sujeito do objeto, considerados como realidades heterogêneas, distintas, e que se apropriam de gêneros e bens. Tendem a reduzir seu oposto a uma aparência ilusória. Essas dicotomias são, portanto, as faces complementares de um engano comum e originário. A desagregação dos modos distintos desses modelos figurará a construção de uma imagem fetiche por fugaz.
E num é que essa separação é a origem das ciências e filosofias modernas. A dicotomia tudo é consciência ou tudo é objeto, reduz os acontecimentos objetivos para aquém do entendimento dos fenômenos, e não é essa a percepção necessária à arte contemporânea.
Essa relação da filosofia subjetivista, modulada com essa ciência objetivista, é o que Merleau-Ponty chama em seu livro Fenomenologia da Percepção de “pensamento de sobrevôo”.
Sua filosofia contemporânea se preocupa com a fusão dessas dicotomias: sujeito-objeto, fato-essência, ser-consciência, realidade-aparência, que já carregam em si, interpretações da realidade: experiência e sentido. E para fundamentar a relação experiência-sentido, busca pela natureza do ser.
Para esse objeto, corpo e mundo são unos, um “campo de presença” onde carregam todas as relações da vida perceptiva e do mundo sensível. O corpo guarda em si a essência da transcendência dentro de uma caixa ontológica, material, que através da empiricização do homem no mundo e do homem no homem, mantém as relações diretas do externo (mundo visual, da imagem, da representação) com a percepção e absroção desse externo pelo ente, relação de troca de energia provada, já lá na física moderna, que existe produzida pelos movimentos primitivos circulares dos átomos e dos astros. Essa percepção fenomenológica acrescenta a essa relação os movimentos primitivos dos fatos, das idéias, dos sentimentos.
Esteticamente falando, é o logos do mundo estético que torna possível essa intersubjetividade como intercorporeidade, que através da manifestação corporal na linguagem e da manifestação não conceitual da desfiguração, permite o surgimento do logos cultural
A arte por si só, em seu conjunto, numa cíclica histórica de construção pessoal da história da própria arte, consiste em fazer com que os objetos estejam presentes sobre a condição expressa de não estarem lá. É como funciona hoje com a pintura ou com a fotografia. Querem transcender a materialidade pela experiencialização, sem a qual não existiriam, porque rumariam para um sentido sem o qual não seriam pintura ou imagem.
Essa percepção relacional da fenomenologia nos retorna à análise do selvagem, a partir das novas necessidades presentes na caixa modelar contemporânea. Volta ao ser, antes da ciência e da filosofia.

[1] Não sendo a linguagem sua essência e obra perfeita. Pelo contrário. Por isso precisa de complementaridade, como o é a arte, por exemplo.
sábado, 28 de março de 2009
O Absurdo Banquete do Comedor de Amor
Diálogo 28 - Nas Entrelinhas dos Seres
- As entrelinhas que nos colocam passíveis de aprendizado, presentes no caminho entre a felicidade e o sofrimento, e até onde conseguimos nos adaptar nessa relação, sem nos cooptarmos ou nos suicidarmos.
- Às vezes não atribuímos qualquer noção do quanto são úteis alguns infortúnios da nossa vida, na busca por respostas ao nosso ser-em-si.
- Certo que não há porque não se vangloriar do ócio, da vantagem de despender de uma vida proposta na inteiridade do conforto e da segurança. Mas é fato: qual caminho é mais interessante: o dos riscos, perigos e conflitos propostos ou a coerente e confortadamente satisfatória, num sentido amplo?
- Pode até parecer uma proposta de discussão neoliberalizante, de aceitamento das circunstâncias propostas pelo capitalismo, e blá, blá, blá. Mas em essência, seja no capitalismo, no comunismo ou em qualquer das terceiras ou diversas vias solucionais, essa discussão sempre será pertinente, afinal, qualquer desses caminhos será trilhado e construído por seres humanos, todos sempre passíveis de erros e enganos, relativizados.
- O fato é que os sabores das conquistas são muito diferentes quando a gente as alcança depois de passar por dificuldades extremas. O segredo todo está em não confundir intensidade (intensamente) com inteiridade (inteiramente).
- Não há possibilidade de sermos inteiros e/ou termos inteiro; nem os sujeitos, nem os objetos. Por isso também o ciúme se torna obstáculo inútil na nossa relação.
- Então, nessas relações ditas sociais existem espaços mútuos entre os seres. Espaços que chamo de alimite da liberdade. E eles devem ser observados, respeitados, a fim de se manter uma mínima organização possível do espaço-tempo entre os humanos.

- Ou seja, o encontro de soluções num engrandecimento psicológico, de organização interior do sujeito a partir do exterior (dos fatos-objetos).
- Que é o que muitos também chamam de “amadurecimento”.
- Nesse contexto, a experiência da vida talvez seja até mais importante do que a própria vida. Ou melhor, vida = experiência dela mesma. Óbvio. A busca pelas explicações sobre a existência (e a busca mais do que quer que seja), a partir do que se sentiu vivendo, em grande medida vale muito mais do que qualquer teoria (não negando, claro, a importância desta em determinados sentidos).
- Ser prudente é coerente, mas só quando necessário. Não é tão coerente quando à nossa frente não há mais soluções possíveis já especificadas para cada caso.
- Não há nada baseado no sofrimento e na dor que ofusque “um qualquer algo” que se finaliza glorioso quando, antes de qualquer coisa, ama-se do fundo da alma o que se fez ou faz, a fim de se encontrar presente em si e no próximo, na conseqüência dos atos.
- As dificuldades são cotidianamente normais. Elas só se tornam difíceis quando não percebemos (ou não queremos perceber, momento esse muito mais delicado) o ponto específico entre aquilo que somos ou fazemos versus aquilo que idealizamos ser ou fazer.
- O segredo está em perceber o contexto e, quando não, momentaneamente reagir positivamente ao sofrimento e jamais negá-lo. Como uma vez disse Nietzsche, esse seria o segredo dos felizes.
- É coerente, quando se analisa, por exemplo, as pessoas que vivem intensamente sua vida sem perpassar o alimite-da-liberdade, e continua no ciclo, em direção ainda não desbravada. Esse é o cerne do alto-controle. O fracasso faz com que haja transformação interior, na maioria das vezes ensinando maravilhas quando canalizado para si como experiência útil a fim de se desenvolver interiormente em vida.
- Afinal, nem sempre o que consideramos fracasso realmente o é.
- Manter-se na ordem nessa situação, sentido-se triste por isso, é simplesmente não perceber uma ordem justificada por uma tradição organizada em apenas UM molde específico, dos MILHÕES POSSÍVEIS de serem construídos em sociedade.
- Quem foi que disse que, ao nascer, teríamos que passar uma imagem paralela à ordem costumeira, aos nossos herdeiros?
- As dificuldades causadas da diferença são de ordem meramente organizacional. E todo costume é passível de adaptação.
- As experiências dos que vivem passíveis de transformação (todos) buscando intensidade na vida (alguns) – e desfrutam das sensações maravilhosas que isso causa – são únicas. São explosões intermitentes, inexplicáveis. É das dificuldades que esse modo de vida se propõe que se abrem novas janelas a novos horizontes de possibilidades nunca antes imaginados.
- É como ter gradeada uma belíssima janela numa parede de cobogós. Os buracos da parede nos fazem ver o que está fora, porém numa certa segurança e limite. Quando a janela é aberta, temos uma vista à mostra para novos perigos e oportunidades, podendo-se ver outros ângulos antes nunca vistos, realidades nunca antes reparadas, respostas nunca antes alcançadas, que, com o tempo, tornam-se costumes a partir da adaptação.
- As dificuldades da adaptação é que pesam. Mas é esse peso que nos transforma e nos faz humanos em busca do que chamam vida, quando canalizado nesse sentido.
- E como saber se não compensariam se não nos atrevermos a nos arriscar, se é isso que buscamos? Não falo somente da futilidade de se arriscar num grandioso investimento na bolsa de valores. Falo de se arriscar em função do outro, em busca de felicidade no caminho com o outro, a partir da compreensão e da paciência com as diferenças.
- As dificuldades geradas pelas situações de busca produzem energia suficiente para se renascer infinitas vezes, sempre mais forte e sábio do que antes, até o limite da morte (que nos transpassará para um desconhecido).
- O cerne da questão está em não amortizar o sofrimento; não paleativizar a proposta de busca da verdadeira felicidade na busca, no caminho “do-ser-feliz”. É como o próprio Nietzsche propõe, quando diz que aquilo que não nos mata, só nos fortalece.
- Nesse sentido, abolir o sofrimento é vagar no vazio porque o sofrimento transforma qualquer transição, e como tudo sempre é transição, dá a nós, humanos, atuação de uma vida menos irreal e mais pulsante.
- Vem!

.
quinta-feira, 5 de março de 2009
O Absurdo Banquete do Comedor de Amor

- Bom, vejo o amor alimite.
- Ãh?
- Amor é alimite dentro da finitude possível do entendimento prático-racional do humano. O amor é cíclico, como toda a existência. Limitado, se sozinho, precisa de outros sentimentos alimites pra existir plena e essencialmente. Como não nos é capaz de aceitar isso como necessário – de entender a finitude do universo por cíclico e o amor como sendo parte desse ciclo – criamos o conceito de subjetivo, remetendo abstração ao amor, considerando-o único e onipotente, forçando situações dentro de parâmetros moldados pela necessidade criada pela construção social de que fazemos parte.
- Certo, o behaviorismo radical pode ser útil, mas não é suficiente quando se busca explicação para os sentimentos além do processo orgânico do universo. Não se deve negar a essência da existência dos equilíbrios (de energia) naturais (no sentido de natura, physis; mais amplo que o mero sentido de natureza; busca por fazer parte do todo e menos parte do mínimo de tudo).
- Estamos todos sujeitos à mesma diversidade. Por isso somos pura indeterminação, conseqüentemente eternas possibilidades.
- Aristóteles dizia que o mundo tem uma alma que mistura três essências: a indivisível, unidade absoluta do todo inteligível; a divisível, ou multiplicidade, que caracteriza os corpos e seu devir, e uma terceira, intermediária, a existência, que participa das duas primeiras. Aqui daqui que percebemos de onde vem nosso ínfimo momento de existência, presente entre o sono e a vigília.
- Diferente das concepções da filosofia e da física antigas sobre o mundo, os sentimentos impossivelmente se regeriam por razões matemáticas, porque escapam à noção de matéria ou elementos que preexistam a uma ação possivelmente explicável pela organização mecânica.
- No nosso mundo reina a contingência, o acidente e o acaso!
- Acidente pré-necessário, a descontinuidade é a norma do movimento, mesmo ele sendo regular. Essa busca do amor pelo regular é que transforma em chama incendiária todo o coletivo-interno do ser, o tempo todo em explosão, porque somos eternas buscas insatisfeitas pelo desejo.
- O universo Einsteiniano expõe a proposta de que a estrutura do campo gravitacional é determinada pela massa e pela velocidade do corpo em gravitação. A geometria do universo, a curvatura do contínuo espaço-tempo, por ser proporcional à concentração de matéria que contém, será determinada pela totalidade da matéria contida no universo, que o faz lógica se descrever numa imensa curvatura que se fecha em si mesma. Embora não seja possível dar uma representação gráfica desse universo finito e esférico, foi possível calcular, em função da quantidade de matéria contida em cada centímetro cúbico de espaço, o valor do raio do universo (avaliado em 35 trilhões de anos-luz). Nesse universo finito, mas grande o bastante para conter bilhões de estrelas e galáxias, um feixe de luz, com a velocidade de 300.000km/s, levaria 200 trilhões de anos para percorrer a circunferência do cosmo e retornar ao ponto de partida. O tempo-vida do universo ou mesmo o seu tamanho finito está tão absurdamente fora da capacidade de percepção prático-racional, que se torna insuscetível à concepção humana de espaço-tempo.
- E a essência da alma está no mesmo patamar: o amor, inexorável a qualquer noção dessa magnitude, finito se torna infinito pela complexidade objetivo-perceptiva. Diferentemente do universo, que se pôde calcular numa idéia de tamanho, não há possibilidade de se calcular qualquer ínfimo espaço cúbico da alma. Nesse sentido, talvez os sentimentos fossem o grande mar incolor atemporal de fogo e gelo, onde repousam o(s) universo(s) possível(s).
- Se assim é, será que se vivêssemos 200 trilhões de anos, passaríamos pelas mesmas situações? Relacionaríamos-nos com as mesmas pessoas, num ciclo infinito da re-experiência dentro da própria finitude espacial do ciclo?
- Einstein admitia que a velocidade da luz não é afetada pelo movimento da Terra, mas rejeitava antigas teorias que distinguiam o movimento absoluto do movimento relativo. Se a velocidade da luz é constante e se propaga independentemente do movimento da Terra, também deve ser independente do movimento de qualquer outro planeta, estrela, meteoro, ou mesmo de todo o sistema do universo.
- As leis da natureza, conseqüentemente, são as mesmas para todos os sistemas que se movem uniformemente, uns em relação aos outros.
- Então, em relação ao que se sente, avaliando dentro da impossibilidade de prova prático-humana, os sentimentos subjetivo-abtratos deveriam então seguir essa mesma regra? Mas considerar um todo relativo num é absolutizar o que seria mesmo relativo?
- É, eliminando o espaço e o tempo absolutos, o universo todo entra em movimento, não tendo mais sentido indagar pela velocidade ou existência "verdadeira" ou "real" de qualquer sistema, porém, não negando também uma possibilidade de relatividade, e sim, negando o significado de uma absolutização do relativo ao generalizar o termo.
- O espaço einsteiniano não tem fronteiras nem direção, e não apresenta nenhum ponto de referência que permita comparações absolutas, pois não passa "da ordem da relação das coisas entre elas", como já dissera Leibniz. O que leva a concluir que, sem coisas que o ocupem e nele se movam, não há espaço absoluto nem relativo.
- Então você quer dizer que os movimentos, sejam eles quais forem, só podem ser descritos e medidos uns em relação aos outros, uma vez que tudo é conceito?
- Ou seja, nem relativos nem absolutos.
- É. A movimentação dos sentimentos funciona como a mecânica celeste, só que de forma geralmente desorganizada para poder se equilibrar com a própria existência do planeta; movimento esse praticamente quase sempre em equilíbrio.
- Pois é, existem tantas estruturas aparentemente interdependentes no espaço, que acabam por depender intrinsecamente umas das outras, como um grande corpo uno em movimento perfeito.
- Assim como o espaço métrico gravitacional e o espaço eletromagnético universal são intoleráveis ao espírito teórico, os sentimentos precisam de práxis constante pra queimar e manter a alma viva. Ali e aqui existem os desequilíbrios, mas quanto menor ou mais subjetivo é o corpo – ou a idéia de, como amor, ódio, piedade – maiores e em menos duração se apresentam os desequilíbrios.
- Ah... idéia de amor...
- Então os sentimentos seriam metafísicos?
- Segundo uma definição de Ludwig Wittgenstein, a experiência metafísica é algo que se encontra além do reino da linguagem, já que haveria coisas que podem ser ditas e coisas que só podem ser mostradas.
- Quando nos tratamos a falar de sentimentos, percebemos o quanto inexplicável é, ao modo da linguagem ou da teoria, demonstrar o que seria o amor. O problema primeiro está já na definição em si.
- Mas explosões também fazem parte da ordem dita harmônica dos entes do universo. Deveria ser diferente com os sentimentos se eles estivessem aquém do universo?
- Veja, esse é o ciclo. Desprenda-se da concepção de ciclo anexa à idéia de círculo. O círculo por círculo só é linear dentro de uma concepção. O ciclo a que me refiro é a fórmula lógico-impossível (teórico-abstrata) do círculo sendo a ordem perfeita do universo e suas explosões extremas versus ordem imperfeita dos sentimentos e suas explosões extremas.
- As explosões existem para mediar a perfeição e a imperfeição. Como não há harmonia na explosão em si, encontramos então um quarto termo na dialética do amor: uno (primeiro termo = harmonia) versus múltiplo (segundo termo = desarmonia) = explosões (terceiro e quarto termos unidos = extremos), que se dão através da desarmonia (que são as próprias explosões, que é o múltiplo em busca do uno).
- Então o ciclo tri (finito) – tetra (infinito) dimensional se dá: múltiplo (desarmonia) versus uno (harmonia) = explosões (uno e múltiplo ao mesmo tempo, unidos e separados – universos e sentimentos) que buscam a harmonia, mas que se completam no uno através das explosões, que buscam a harmonia; mas que se completam no uno através das explosões, que buscam a harmonia... que se completam...
- O problema é que não é possível perceber quando o terceiro e o quarto termo estão juntos ou separados. Esse interlúdio seria o lapso de tempo espacial (desconhecido, abstrato) que caracterizaria a essência da existência, que chamo de alma.
