segunda-feira, 28 de abril de 2025

ECOS DOS CARNAVAIS

UMA BREVE HISTÓRIA DO FREVO

Esses dias me deparei com uma antiga e pequena pesquisa sobre a musicalidade do nordeste nos anos 1960 e 1970, que comecei tecer ainda estudante, na época do pibic, em 2008, quando direcionei a pesquisa para o movimento udigrudi (que inclusive tem um textinho sobre esse movimento por aqui).

Pois bem.. recomecei a ler esses rabiscos e encontrei algumas anotações sobre a musicalidade do frevo e me empolguei. Catucando por aqui, encontrei coisas novas que me animaram e fiquei com vontade de compartilhar alguns recortes. 

Logo, fica aqui o convite: quem quiser mergulhar nesse recorte-viagem, convido a pegar um fone de ouvido e seguir o fio, porque no meio das histórias tem também vários links pra ouvir as músicas!

(orquestra-de-frevo-1940-alexandre-berzin-fundaj)

O frevo é uma expressão musical que passou por incontáveis influências, mas, sobretudo, da musicalidade urbana. Música e dança estão ligadas à tradição da classe trabalhadora e do povo negro pernambucano.  


O primeiro frevo registrado fonograficamente que se tem notícia foi “Marcha do Regresso”, atualmente conhecido como Vassourinhas (Marcha nº 1 do Clube Vassourinhas), criado e composto por Joana Batista Ramos, mulher pobre, negra, lavadeira e trabalhadora de serviços domésticos..


..em parceria com Mathias da Rocha..


..homem negro, pobre, violonista e amigo de Joana.. 

Nos idos de 1909, data do registro em cartório dessa composição, nomeada originalmente como Marcha do Regresso, foi vendida por Joana ao Clube dos Vassourinhas”, por três mil réis, junto com uma letra (!), em 1910:


Entre 1880 e 1930 o frevo tomou forma entre trabalhadores e trabalhadoras negras de Recife e Olinda, com então destaque para criação e crescimento do Clube dos Vassourinhas, inicialmente formado por trabalhadoras e trabalhadores da limpeza urbana (varredores), juntamente com diversos outros clubes (carvoeiros, lenhadores, verdureiras, como já mencionado)

Registrada em 1909, a primeira gravação da “marcha do regresso” só se realiza em 1945, com a letra alterada, na voz dos músicos cariocas Déo e Castro Barbosa, pela gravadora Continental, do Rio de Janeiro.

primeira gravação da “marcha do regresso” (1945)

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Para meu bem passear
A tristeza, vassourinhas,
Invadiu meu coração
Ao pensar que talvez nunca
Nunca mais te beije, ah não!
A saudade, vassourinhas,
Enche d’água os olhos meus
Que tristeza, vassourinhas,
Nesse derradeiro adeus

Segundo Leonardo Dantas, embora o frevo que você acabou de ouvir tenha sido escrito e registrado em cartório por Joana, "ainda em 1909, Almirante (Henrique Domingues, cantor, compositor e radialista brasileiro) não fez tão somente uma simples adaptação da marcha, mas [...] simplesmente escreveu uma nova letra que denominou de ‘Marcha Regresso’ e que veio a ser apresentada como verdadeira por Ruy Duarte, no seu História Social do Frevo" (que é a letra do registro de 1945, que você ouviu há pouco).

Já em outra referência (Projeto de Salvaguarda do Frevo, 2010) aparece outra letra:



Eis que aparece então outra gravação dessa marcha, realizada já em novembro de 1949, agora sob a batuta do paraibano Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara, também pela Continental, do Rio de Janeiro, com o nome Frevo dos Vassourinhas” e sem letra, (que é como ficou mesmo conhecida depois):

Segunda gravação da Marcha do Regresso, agora Frevo dos Vassourinhas (1949)

Logo esse frevo se tornou então a música mais tocada do carnaval pernambucano.

E aí só quatro anos mais tarde acontece o registro fonográfico de outro frevo:

Tio Sam no Frevo, 1953, Orquestra Tabajara)

Tio Sam no Frevo é de autoria do trompetista Geraldo Medeiros e surge aqui também na interpretação da Orquestra Tabajara (da qual Geraldo fez parte) sob a regência do maestro Severino Araújo, em gravação lançada em janeiro de 1953 pela gravadora Continental.

De quatro em quatro anos se gravava um frevo, nesses outros tempos e velocidades de registros de sons e imagens.

Nesse conytexto, fico só imaginando a quantidade de frevos que já estavam sendo criados e executados nas ruas dos carnavais de Olinda, Recife e interior de Pernambuco durante esses oito anos e que não foram registrados fonograficamente, considerando ainda que, após a proibição do entrudo, em meados do século XIX, já se tem registro de várias partituras de marchas herdadas de dobrados e maxixes, que, com o tempo, foram se transformando nos vários estilos de frevo.

(Inclusive, quem souber de referências sobre histórias do carnaval no nordeste nesse período aí (1800-1900), por favor, me passa aí! <3)

Em 1957 a gente passa a se tornar independente do Rio de Janeiro, no que tange ao registro fonográfico das músicas por aqui. Agora, em Recife, temos a famosa gravadora Rozenblit, com uma estrutura absurda, inclusive, com estúdio próprio de gravação para orquestra e uma orquestra própria para execução de frevos e outros estilos musicais regionais:

Discografia brasileira - Destaque para o frevo nº3, de Antônio Maria (18º música da lista, de cima pra baixo)

A história da Rozenblit começa em 1955/1956 e é inegável que ela é, a partir das suas primeiras gravações de frevos, em 1957, foi/é a grande responsável pelo registro fonográfico e manutenção dos registros musciais da/na região nordeste.

Extremamente estruturada e sediada em Recife, gravava músicas produzidas por artistas do nordeste inteiro e ainda cobria 25% da produção fonográfica nacional. Sem dúvida isso abria oportunidades para que músicos e orquestras daqui tivessem mais facilidade e autonomia para gravar suas composições, salvo questões sócio-adstringentes.


Então, finalmente, os primeiros frevos gravados em Recife, pela Rozenblit, em 1956 e 1957:

Vassourinhas, com as variações do saxofonista Felinho e interpretada pela Orquestra Mocambo, sob a batuta de Neslon Ferreira:

Vassourinhas, Orquestra Mocambo, 1956

Evocação (que depois virou Evocação nº1), do próprio Nelson Ferreira:

(Evocação, 1957)

e “Vem Frevendo”, ratificando o nome do estilo, composição de Nelson Ferreira e com interpretação da Orquestra do Clube da Polícia Militar de Pernambuco:

(Vem Frevendo, 1957) 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro de 1956, a RCA/Victor gravava (entre outras) “Tempo Quente”, de Edgar Moraes, interpretado por Zaccarias e sua Orquestra.

A RCA/Victor já fazia juz ao seu papel de registradora de áudios de frevos, junto com a Continental, embora o objetivo delas, acredito eu, seja bem comercial, um tipo “frevo pra exportação”..

(Tempo Quente, 1956)

E aqui o registro de um mais antigo ainda, com gravação registrada em 1952, também executado por Zaccarias e sua Orquestra e gravada na RCA/Victor, que traz uma gama de gravações de frevos muito importantes pro momento, compostos e gravados entre 1952 e 1957.

(Frevo na Rua Nova, 1952)

“Lá na rua, eu fervo” (frevo) |”a coisa é de ferver” (frevê) | “Já tá fervendo” (frevendo).

Segundo Walmir Dantas, essas eram as expressões que se ouvia da boca dos foliões na década de 1900, enquanto seguiam as troças e os clubes de rua em Recife.

Em 1957, o compositor Nelson Ferreira fixou esta ideia no pentagrama musical, compôs o frevo-de-rua “Vem Frevendo”, e a música foi lançada para o carnaval de 1958.

Diz-se que Nelson Ferreira é um dos compositores brasileiros com mais composições gravadas na história. Interessante dar uma olhada nos seus frevos mais antigos, para além das sete evocações que ele criou.

Nesse disco a seguir aí você encontra as sete evocações dele.

(Meio Século de Frevo de Bloco, Nelson Ferreira, Vol. 1) - Com as vozes do Coral de Batutas de São José e sua Orquestra, junto com a regência e arranjos do próprio Nelson Ferreira.

E, particularmente, dessas marchinhas dele, gosto muito dessa aqui:

(Não Puxa, Maroca, 1929) - Orchestra Victor Brasileira - NÃO PUXA, MAROCA - marcha-nortista (depois nomenclaturada como frevo-canção) de Nelson Ferreira

Segundo os registros, essa gravação que você ouviu no storie anterior é de 1929, realizada pela ODEON. Observe que é uma gravação mais antiga do que a Vassourinhas, de 1945, né?

Mas ainda não era frevo.. era marcha.

Isso causa certa confusão, né?... rs.. a questão é que vassourinhas já nasceu frevo. De rua. Frevo canção e frevo de bloco são estilos que se firmam pouco depois como frevo, a partir das transformações das marchas e marchas-polcas e que, apesar de também serem tocados nas ruas, eram muito mais comuns serem tocados nos clubes e locais fechados “aristocráticos”.


Tanto que a origem social de Nelson Ferreira é bem diferente das de Joana e Mathias, por exemplo. Teve oportunidades que o povo pobre não teve.

A letra de “Não Puxa, Maroca”, nessa gravação que vai se seguir aí no próximo storie, pra mim, já me soa mais como frevo do que como marcha (embora ainda seja marcha.. só depois que as marchas passam a marchas-frevo e depois frevo de bloco). E essa, em especial, o instrumental ainda pode ser um bom frevo de rua. E um excelente frevo canção.. rs.. 

Você consegue ouvir “Não puxa, Maroca” com a letra aqui, ó, em 1min28seg

(Nelson Ferreira, História do Carnaval - vai lá em 1min28seg)

Maroca o teu gato
É um bicho gaiato
É um bicho bonito,
É um bicho bonito...
Tu puxas, Maroca, no rabo
Mas olha o diabo
Que rabo de gato não é pirulito
Que rabo de gato não é pirulito!
Maroca, o teu ganso
É um bicho até manso
Que nunca estrebucha
Que nunca estrebucha...
Tu puxas, Maroca, o pescoço
Mas, mesmo sem osso
Pescoço de ganso não é puxa-puxa
Pescoço de ganso não é puxa-puxa!

Nelson Ferreira é um capítulo à parte aqui, porque têm muitos registros de composições dele com outras pessoas, entre 1929 e 1945, algumas canções que se aproximam muito de frevo, outras mais da marcha, mas, no fundo, tudo vira frevo em algum momento.

Se liga só mais nessa aqui, chamada “Que matá papai, oião?”, de 1945.

Acompanha a letra na descrição do vídeo lá..

Enfim, voltando à Vassourinhas e à Evocação, aqueles registros de 1956 e 1957 foram as primeiras gravações de frevo pelo selo Mocambo.

A Rozenblit tinha 3 selos diferentes para os diferentes estilos regionais e nacionais da música. O selo Mocambo era o selo das músicas regionais.

Mas enquanto a Rozenblit se organizava por aqui, as gravadoras RCA/Victor e Continental, sediadas no Rio de Janeiro, não pararam de gravar nossas músicas e, um ano antes da Rozenblit lançar Evocação, em 1957, a Continental já lançava uma primorosa coletânea com 7 frevos (incluindo aquela versão de Vassourinhas, de 1949) executados pela Orquestra Tabajara, sob a batuta de Severino Araújo.

Essa coletânea reuniu diversos frevos, compostos entre 1941 e 1951, por artistas pernambucanos (Joana Batista Ramos e Mathias da Rocha, Levino Ferreira, Severino Araújo, Edvaldo Pessoa)  e paraibanos (Geraldo Medeiros). 

(A Tabajara no Frevo, 1956)

Esse disco da paraibana Orquestra Tabajara é das primeiras gravações mais organizadas de frevo que conheço, antes da Rozenblit gravar Evocação em 1957 e iniciar seu primoroso trabalho de registro e divulgação de vários outros frevos que veremos anos mais tarde.

Nesse ínterim aí, tem muita história, né? Porque antes de qualquer registro fonográfico, o frevo de rua já era executado pelas orquestras nas ruas, já na segunda metade do século XIX (Joana Baptista registrou sua marcha do regresso em 1909 (!).

Existem registros dos primeiros desfiles do Clube Vassourinhas já em 1889, assim como registros de Dobrados e Marchas grafadas em partituras, de 1895, 1897, 1899, 1900, 1910, 1914, 1915.


Mas também tinham aí outros clubes e troças, né? Clube Lavadeiras de Areias, Clube das Pás.. Clube Lenhadores.. Clube Andaluzas.. Batutas de São José.. enfim.. é muita coisa.. tem muita história aí.. 

A Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense, por exemplo, foi fundada em 15 de fevereiro de 1921, né? E com certeza já desfilava com orquestras muito antes dessas gravações. Quem eram essas orquestras? Da onde vinham? Vale uma pesquisa profunda aí (sem falar que a própria história do mote do velho do Cariri tem a ver justo com a região do Crato, no CE, que está completamente ligada ao universo do udigrudi e do movimento contracultural nos anos 1970, cuja Rozenblit foi pioneira no registro desses trabalhos).

Mas é isso: agora com uma gravadora cediada em Recife, muitos compositores e orquestras começaram a criar, executar e registrar seus frevos aqui.. aos poucos, com o passar dos anos, a Rozenblit já acumulara dezenas de discos de frevo (e de diversos outros estilos também), tornando nosso mercado e registros fonográficos independentes das grandes gravadoras sediadas no Rio.

O acervo musical de frevo da Rozenblit é absurdo e foi digitalizado recentemente.

Se liga na lista do próximo link aí. Um apanhado de TODOS os frevos gravados pela Rozenblit, de 1957 até quando a gravadora fechou suas portas em 1983.

São mais de 151 registros, entre frevos avulsos e discos completos.

(Acervo Rozenblit de Frevos)

Alguns desses álbuns são muitos famosos, como, por exemplo, esse aqui, ó, que eu gosto muito:

(O Frevo Vivo De Levino - Orquestra de Frevo de José Menezes)

Ouvindo essas pérolas resgatadas pela Rozenblit, a gente vai percebendo que vários frevos de rua conhecidos, desses que as orquestras tocam na rua aqui em Olinda no carnaval, muitos deles tinham letra originalmente.

Até hoje fico de cara quando descobro certas letras.

Se liga nos primeiros 30 segundos do frevo “Abertura, nesse link que segue

(Capital do Frevo 77 - Última Produção e Arranjos de Nelson Ferreira)

Uma introdução, com letra, à letra de Evocação nº1! É babado, viu?

Pronto. Vou parar por aqui agora e em algum outro momento sigo pra um aspecto do assunto um pouco mais polêmico.. o frevo e as bandas militares.. 

Uma coisa que eu descobri na vida e que me deixou bem impressionado, é que muito do frevo de rua, antes mesmo dos registros fonográficos, era bastante executado por bandas militares, uma herança do dobrado e das marchas marciais - como esses regravados nessa coletânea aqui

(Três Séculos de Música Brasileira - Dobrados)

Se você fizer uma rápida pesquisa, vai descobrir gravações da banda da aeronáutica, da banda da polícia militar de PE, da Banda do 14º Regimento de Infantaria do exército.. gravações primorosas, por sinal, realizadas mais tarde, a partir de 1972, vinculado ao programa de rádio O Tema É Frevo, que sob a tutela do arranjador, compositor e radialista Hugo Martins, que produziu 10 coletâneas de frevo a partir desse programa 

(10 Coletâneas de frevo das orquestras militares)

Vários frevos de compositores famosos como Levino Ferreira, Zumba, Nelson Ferreira, Carnera, Capiba, Raul Moraes, Toscano Filho, foram gravados nessas coletênas.

Em 1972, Toscano Filho compôs o frevo de rua O Tema é Frevo especialmente para o programa, o qual foi gravado originalmente pela Banda da Base Aérea do Recife, nos discos Rozenblit

 (Disco “O Tema É Frevo - Vol. 1” de 10)

Graças à grotesca e bizarra era da Ditadura Civil-Militar no Brasil, há uma problemática quando buscamos saber se a música do frevo surgiu das orquestras militares ou das orquestras civis. É óbvio que já se percebe historicamente que nasceu no meio do povo (vide a história de todos os clubes e orquestras civis, vide a história de Joana Batista, enfim), mas a influência das orquestras militares e dos militares no meio das orquestras civis de frevo era também absoluta, sendo impossível negar essa influência das orquestras militares na salvaguarda da musicalidade do frevo.

Em resumo, o que se sabe é que havia grande mistura entre todo esse pessoal aí: civis e militares. Os frevos gravados nos anos 1940 e 1950 são de compositores civis, mas é inegável a influência das execuções musiciais militares nesse meio.

O maestro Severino Araújo (aquele lá da Orquestra Tabajara), por exemplo, era filho de militar e aprendeu o ofício de músico graças aos militares, praticando na orquestra militar, inclusive se tornando regente de uma delas.

É importante lembrar também que nesse momento histórico aí do surgimento da musicalidade do frevo, estamos há poucos anos pós Revolução de 1817 e da República, e sabemos todes que essas etapas da história do Brasil é institucionalmente tomada pelo poder militar.  

Mas as primeiras gravações mesmo, de frevo, são lá da metade pro final dos anos 1940 (isso sem considerar as marchas que vão “virar” frevo de bloco, gravadas nos idos dos anos 1929, 1930). 

E embora muitas orquestras de rua e profissionais (principalmente) tivessem militares em suas formações (quando não fossem praticamente toda formada por estes), as releituras e composições exclusivamente militares começam a ser registradas de forma mais organizada e em separado só a partir de 1972 (salvo as gravações avulsas encontradas por aí, como por exemplo Vem Frevendo, composição de Nelson Ferreira e com interpretação da Orquestra do Clube da Polícia Militar de Pernambuco.



















Mas como eu já disse, muito antes o frevo já era tocado na rua. Inclusive, o frevo de rua é mais antigo do que o frevo de bloco e do que o frevo canção, né? Embora que nas primeiras gravações da Rozenblit estivessem muito presentes esses dois últimos também.

Existe um resgate das partituras dos frevos executados antes dos anos 1930 e sabemos pela história dos clubes e troças daqui que o frevo de rua já era clássico nos anos 1930.

Se liga nesse resgate de frevos de rua, de 1912 a 2000, da Orquestra de Frevos Vassourinhas de Olinda

(Orquestra de Frevo de Vassourinhas de Olinda - 1912-2000)

Embora essa gravação seja recente, o projeto foi justo resgatar os frevos mais antigos escritos. É uma coletânea de 1912 até 2000, né? É muito tempo.

Mas é inegável: as bandas marciais e militares foram fundamentais para a criação e sobrevivência do frevo de rua.

Há relatos de Hugo Martins, inclusive (aquele do programa O Tema é Frevo, da Rádio Universitária) que fala da importância das bandas marciais e militares nesse processo de execução e gravação dos frevos.

Esse programa (O Tema É Frevo!) engendrou a gravação de 10 discos contendo frevos clássicos e novos, executados por bandas militares, né? É muita força. Sa sequência segue mais um que gosto bastante dessa coleção

(“O Tema é Frevo - vol. 03” de 10)

Primorosa criação e execução: frevo para piston, de Correia de Castro.

Algumas fontes relatam bem a mistura das orquestras.. orquestras militares e civis dividiam as ruas.. muitas vezes a orquestra civil era formada por militares oriundos de famílias de músicos da época da revolução pernambucana de 1817, quando o governo provisório republicano incentivou e até investiu na formação de bandas marciais e de fanfarra..

se liga nesse relato:


O dobrado, a marcha, a valsa, o maxixe, a polca, o lundu, foram estilos musiciais criados por aqui, a partir de misturas diversas, que com o tempo deram origem ao frevo, ao choro e ao samba.. essa é outra vertente da pesquisa.. que não vou trazer aqui agora não..

Mas se liga só nesse resgate musical aqui, de estilos muito executados no século XIX, aqui no Brasil, e que influenciaram bastante a criação do frevo:

(Playlist Bandas de Música)

3 séculos de música - maxixes

Aos poucos, a orquestra da PMPE conseguiu status de Companhia Independente, o que facilitou ainda mais a participação dos militares nas orquestras


De fato, Zuzinha, nas décadas de 30 e 40 do século XX, conduziu o frevo e a banda da polícia militar a um reconhecimento nacional, haja vista gravações realizadas por compositores, maestros e músicos do século XX, com particular papel fonográfico para a Rozenblit, às divulgações fonográficas e aos programas de rádio. Foi aí que se diz que ficou estabelecida a subdivisão rítmica, que consta nas partituras do acervo da banda da polícia militar: o frevo-de-rua, o frevo-canção e o frevo-de-bloco (este último, para  alguns, marcha-de-bloco).

Um brevíssimo adendo sobre a dança do frevo - só pra contextualizar sobre as misturas todas que fez do frevo o que ele é hoje, porque aqui já é outro outro adendo da pesquisa rs.. - é que a galera da capoeira usava a capoeira para conseguir se impor e brincar na rua ao som das bandas marciais e orquestras que tocavam marchas e marchas-frevo nos cortejos, já no início do século XIX, quando pobres e pretes eram proibidos de brincar carnaval nos salões onde as músicas mais “clássicas” (como as valsas e polcas) eram executadas..

..a galera ía pra rua dançar e brincar e, dessa mistura de movimentos da capoeira e da dança-brincadeira, surgiu o passista e a dança do frevo..

(guerreiros do passo)

Então, o frevo todo veio de uma mistura absurda, né? Mistura de orquestras civis, orquestras militares, que muitas vezes tocavam juntas, mas que também aos poucos foram construindo uma richa (inclusive já vi fontes dizerem que as orquestras militares contratavam - olha só! - capoeiras, para defender o cortejo, que tinha em média 50, 70 músicos..).. isso é uma onda, né? Porque mostra a força e a imponência da capoeira na própria percepção das instâncias autoritárias, como a polícia, por exemplo. 

E que por sua vez contratavam capoeiras pra defender do próprio povo o cortejo do bloco que era pro povo (mas que povo, né? socorro), e esse povo entrava em conflito com a polícia quando ela vinha afrontar a galera simples e preta que queria brincar e que aprendeu a jogar capoeira pra se defender da polícia e se impor na rua com direito de brincar também e o capoeira contratado brigando com capoeira brincante..

E orquestra brigando com orquestra.. e brincando junto.. e tocando junto..

Inclusive, até hoje, né? As orquestras têm uma herança nessa richa. Quando uma encontra outra no cortejo na rua no carnaval, uma quer abafar a outra (criando aí um subestilo pro frevo de rua: o frevo-abafo.. que serve justo pra abafar a outra orquestra..)..

Bom, uma coisa que eu sinto atravessar forte é como a prática de ser músico profissional fez dos músicos militares pessoas que saíam pra rua pra tocar frevo no carnaval. Muita gente pode até pensar que eles tão fazendo isso por dinheiro, né? Afinal, é o trabalho deles. Mas, sinceramente, eu não acho que seja só por isso. Existe um sentimento aí, um amor pela música, pela magia nosso corpo acessa através dela, algo que é causado pelo efeito intersubjetivo que a música provoca e os lugares que ela acessa na gente.

Muita coisa aconteceu depois da revolução de 1817, que fez com que o pernambucano se apoiasse em parte do ideário militarista raso pra tomar o poder.. e talvez isso até justifique grande parte da sociedade brasileira apoiar uma ditadura nos nos 1960 (uma conjecturação.. nunca li nada sobre isso..).

Queria só deixar registrado a ausência (ainda) aqui de maiores informações sobre a influência das mulheres no processo de construção da musicalidade do frevo.. assim como a ausência de informações sobre as influências da musicalidade indígena.

Trata-se de um recorte bem pequeno ainda, e que tenho a consciência de que muitas mulheres foram também instrumentistas, compositoras e maestras do ritmo e do passo, mas que (infelizmente) foram apagadas da História.

Assim como também tenho a consciência de que muitos desses homens, grandes maestros, músicos e arranjadores também, só puderam fazer o que fizeram e estar onde estiveram porque provavelmente havia mulheres cuidando deles, dos seus filhos, das suas casas e organizando suas vidas. Caso contrário, não teriam tido tempo pra tanta coisa.

E essa coisa da “história” das “primeiras músicas brasileiras”. Muitos pesquisadores entendem o choro, o frevo e o samba como matrizes primeiras da música “genuinamente brasileira”, mas na grande maioria das vezes esquece a vasta influência da versatilidade da musicalidade indígena nesse processo, assim como da musicalidade negra (embora esta seja mais comum de ser mencionada hoje em dia na formação epistêmica do frevo, do choro e do samba, porque é óbvio, né?). 

Tem um material muito legal do Paço do Frevo, que traz a influência das mulheres nesse processo de criação e manutenção do Frevo. Vou deixar dois links muito bons aqui pra quem se interessar sobre essa especificidade, e quem souber mais sobre esse tema, me diz aí referêcias. :)

(MULHERES NO FREVO E SUA HISTÓRIA)

(paço do frevo - elas são frevo!)

(Fontes dos recortes em preto e branco)

(Fontes dos recortes em preto e branco 2)


quinta-feira, 24 de abril de 2025

O FUTURO EDUCATIVO É ANCESTRAL

COMO ESSA REFLEXÃO PODE PROPORCIONAR À EDUCAÇÃO ESCOLAR CONVENCIONAL INSTITUCIONAL DA ATUALIDADE UMA PROPOSTA DE UMA ESCOLA TRANSFORMADORA NA SOCIEDADE COMO UM TODO, PRA ALÉM DO CAPITALISMO

A escola pública convencional, como a conhecemos hoje, começa a se moldar a partir da segunda metade do século XVIII, com a revolução industrial inglesa, inicialmente, promovida com a riqueza roubada da África, Ásia e América e acumulada pelos europeus nos movimentos da expansão marítima mercantilista. Ok. A escola nasce, então, da demanda de um capitalismo que surgia. Nesse trajeto até aqui, a educação institucional escolar convencional se moldou como máquina de formar proletário, como jogos de poder e ego político, como mercadoria meritocrática e como joguete tecnológico - não necessariamente nessa ordem e não necessariamente um molde substituindo o outro, mas, muitas vezes, com todos eles convivendo juntos.

E apesar dos esforços e gastos homéricos com essa escola convencionalizada, cada vez mais percebemos como ela não está mais dando conta das reais demandas sócio-culturais contemporâneas. É só entrar em uma e acompanhar por um tempo o trabalho nela desenvolvido. Tudo funciona para 10% dos estudantes que estão lá dentro. Aos outros 90%, no meio do faz de conta neoliberal, vamos levando, “passando” nas provas institucionalizadas e generalizadas, seguindo forçados a acreditar que uma formação, mesmo que precária, é melhor do que nenhuma. E isso tem sido uma baita armadilha.

Já se disse que uma formação precária nos leva a pensar que sabemos o que não sabemos, que o que aprendemos fora da escola é “inferior”, que somos capazes de fazer o que não somos, e desmerece o que realmente somos capazes de fazer. 

A escola se submete a enormes pressões para se conformar aos paradigmas da globalização e da lógica da sociedade neoliberal e aí continua sendo espinha dorsal da manutenção de um sistema extremamente opressor, disfarçada de promotora da liberdade social.

Pra aliviar isso, nós, professores, nos dedicamos exaustivamente à competição por uma boa classificação nos índices de desenvolvimento. Oferecemos ao mercado e ao sistema de ensino as “melhores” mercadorias educacionais - estudantes formados -, o que, por sua vez, vai lhes “garantir” melhores condições de vida, de emprego e de ocupação profissional.

Mas você sabe, né, que só uma em cada 10 crianças continua o ensino médio, e/ou consegue acesso à formação técnica e/ou outros níveis de estudo, isso quando não precisa abandonar a escola pra trabalhar pra comer, criar es filhes ou ajudar a família.

Algo nessa conta não fecha, né?

Em 1960, as ligas camponesas, movimentos quilombolas e dos povos indígenas já denunciavam essa situação, seguides por diverses pensador@s da educação, que localizavam a crise crônica em que vivia escola. Nos debates entre famílias, estudantes, educadores, políticos e opinião pública nos idos de 1960, praticamente tinha-se por consenso colocar essa escola em estágio de “morte clínica”.

Mas ela ressuscitou.

Após o período da redemocratização e da LDB de 1996, inegáveis transformações ocorreram, como melhorias e ampliação dos currículos; reestruturação e ampliação do número de escolas; acesso democrático à escola garantido a todos; investimento em tecnologia; e, a partir dos anos 2000, abertura de diversas ETEs, Institutos Federais e campis universitários pelo interior; programas políticos de reparação histórica como o Reuni, o Prouni, o sistema de cotas, revisão da LDB, criação de escolas indígenas, entre tantas outras.

Que bom. O básico parecia estar sendo finalmente ofertado com qualidade.  

Tais transformações são inegáveis sim, e devemos celebrá-las e defendê-las sim, porque são o respiro que nos mantém minimamente sãos para discutirmos transformações mais profundas do que estas, até porque, no geral (e quem dentro da escola sabe), o modus operandi epistemológico e ontológico escolar infelizmente ainda permanece parecido, porque, no fundo, ela continua reproduzindo o modelo de sua fundação.

Nesse aspecto, pouco tem transformado a realidade social das periferias, considerando o modelo da formação que conseguimos oferecer, apesar dos grandes e exaustivos esforços.

A maioria des estudantes e professor@s da escola pública não se identifica mais com a escola... porque não “aprendem”, porque não conseguem “ensinar”, porque “aprendem” e “ensinam”, mas não se sentem realizados com os “resultados”.

Há um estranhamento dos agentes sociais, uma dissociação entre escola e comunidade, entre teoria e prática, entre real demanda e soluções apresentadas. Há uma crise de reconhecimento e representatividade, um inchaço organizacional.

Enfim, trata-se de um problema estrutural e isso tem feito com que sentidos e significados tenham se perdido no processo pedagógico, esvaziando nossas ações e o alcance de objetivos comuns.

Sim; nós, professores e estudantes, estamos pedindo socorro. E faz tempo.

Atentos a esses problemas, dezenas de países legalizaram a chamada educação domiciliar (homeschooling) nos últimos 40 anos, em alguns casos até exigindo avaliação anual des estudantes. Homeschooling significa “ensino em casa”. Ou seja: a transferência dos conteúdos disciplinares da escola para o domicílio, sistematizados pelos pais ou tutores, ao seu bel prazer e intencionalidades. Uma casinha de reacionarismos e isolacionismo.

Mas, nesse mesmo período, alguns educadores falaram também de outra coisa: de uma tal de desescolarização (unschooling), que é completamente diferente de ensino domiciliar. 

Desescolarizar, para esses educadores, não significa acabar com a escola ou trocar a escola pelo lar, mas significa usar o equipamento social e cultural escola em favor da comunidade.

Vou explicar.

A desescolarização está associada à publicação dos livros Deschooling Society, de Ivan Illich, e The School is Dead, de Everett Reimer, em 1971, cuja CRÍTICA FOCA A ESCOLA ENQUANTO INSTITUIÇÃO CONVENCIONAL DE PODER E CONTROLE CAPITALÍSTICO NA SOCIEDADE (assim como fazia Foucault na mesma época lá na França).  

Ainda em 1961 e 1964 respectivamente, How Children Fail e How Children Learn, de John Holt já davam previsões desse debate.

Paulo Freire, em sua origem, lá na década de 1960, debateu e defendeu essa ideia também (de onde você acha que surgiu a reflexão apresentada em Pedagogia do Oprimido e a lógica dos Círculos de Cultura?).

Em 1977, Holt cunha o termo unschooling na revista Growing Without Schooling e, seguido por Freire, Illich e Reimer, publicam sobre o assunto no Centro Intercultural de Documentación (CIDOC), em Cuernavaca, no México 

Presta atenção:

as posições mais radicais da chamada desescolarização são conhecidas por seus projetos de desinstitucionalização, sim. Mas o próprio Illich deixou explícito em seu primeiro livro que “o objetivo do debate é ressignificar o ethos da escola, e não propriamente acabar com as instituições” (ILLICH, 1973, p.14).

Sim, pra ele, desinstitucionalizar não significa necessariamente acabar com as instituições, mas sim, dar outra função social e cultural pra elas, pulverizando a lógica da generalização institucional, transpassando a lógica do macrossocial pro microssocial, alterando assim a função estrutural da instituição.

Se defende aqui, por tanto, uma MUDANÇA NO MODUS OPERANDI DAS INSTITUIÇÕES, na alma e estrutura de funcionamento da escola, para que e para quem ela serve.

Logo, não se trata de acabar com a escola. E não se debate só escola, mas hospitalização e cárcere também (exatamente como tava fazendo Foucault na mesma época lá pela França).

Trazendo pros dias de hoje, acredito que o objetivo do termo “desescolar” era lacrar: radicalizar o conceito e chamar atenção à urgência do debate.

Mas acredito também que uma mudança no ethos escolar, nesses termos, geraria uma perspectiva de comunidade de aprendizagem, e, sim, poderia ser uma mudança tão radical nessa perspectiva, tão profunda, que refundaria as instituições escolares, transformando-as em outra coisa, talvez mais próxima das perspectivas educativas quilombolas, dos povos originários e anarquistas de bases comunitárias, por exemplo.

Outra coisa importante aqui:

percebe como desescolarização não tem absolutamente nada a ver com a extrema-direita? Não tem. Trata-se de uma lógica de pensar e estruturar a função social e cultural da escola numa perspectiva microssocial comunitária, lógica que já é construída pelos povos originários e quilombolas há séculos.

Mas sim, é um discurso que pode, sim, muito bem, ser usado pela extrema-direta, se não for compreendido e debatido. 

E foi, né? E vem sendo.

É uma batalha acirrada. 

O Estado se omite em debater profundamente a questão, abrindo margem, inclusive, para interpretações bizarras e grotescas sobre o tema, como as apresentadas pelos governos de extrema-direta que se apropriam superficialmente das discussões e exalam fakenews por aí, confundindo tudo, como aconteceu com o governo bolsonarista ou como vem acontecendo com o governo de Milei (que se auto intitula anarco-capitalista.. olhe, vou nem entrar no mérito desse conceito, sinceramente).

É um tema delicado porque a escola pública teve seu potencial resgatado no processo de redemocratização do Brasil, depois que uma ditadura empresarial-militar violentíssima, que acabou com praticamente qualquer possibilidade de envolvimento comunitário entre escola e sociedade e trouxe pra escola uma lógica puramente tecnicista e irreflexiva.

Por que isso?

Porque é na relação entre escola e comunidade que o bicho pega. 

A escola servindo como ferramenta de autonomia e poder para a comunidade, onde as pessoas se sintam participantes e construtoras da sua própria história, de forma autônoma e potente, significante e pertencente, reduzindo-se a distância entre teoria e realidade, mais próximos das lógicas educativas das comunidades indígenas, quilombolas e anarquistas, buscando nos perceber parte de um todo, redefinindo o sentido da vida...

..em contraposição ao que é difundido em nossa sociedade ocidentalizada e urbanizada, que se estrutura na lógica exploratória, competitiva e do prazer dopamínico do bem-estar disfarçado de cuidado...

Imagina o perigo dessa liberdade?

A escola, pública, gratuita e de qualidade é um dever do Estado e um direito de toda e qualquer pessoa, independente de quem seja, independente de credo ou raça ou de onde venha e defendo que assim permaneça porque, querendo ou não, essa é uma conquista prática, embora nossa utopia esteja muito longe disso ainda.

Pode não ser possível pensar uma sociedade sem escolas, mas, como educador, não posso concordar com o jeito que ela vem funcionando ou me satisfazer com as microrrevoluções que ela tem projetado.

A periferia merece mais. As comunidades precisam tomar as escolas, com projetos, planos e responsabilidade social.

A desescolarização é um tema complexo, porque pensar num processo de ressignificação do ethos escolar subentende repensar toda a lógica estrutural e funcional da escola, fundamentalmente no que tange à esfera da socialização e da guarda das crianças enquanto es adultes trabalham.

Tem estudante que vai pra escola só pra comer, porque não tem comida em casa. Tem estudante que prefere estar na escola, seja ela como for, porque não aguenta mais os abusos das pessoas ao seu redor em casa - só pra citar duas situações complexas dentre as centenas que existem.

Isso tudo torna o debate ainda mais complexo, porque pensar uma ressignificação de um ethos escolar, é pensar conjuntamente numa reestruturação social comunitária, que funcione na perspectiva do senso de comunidade envolvida entre si e com a terra, onde todes façam parte da escola, onde comunidade e escola estejam tão emaranhadas que uma sustente a outra organicamente.

“Uma sociedade que tranca suas crianças em creches e seus velhos em asilos não pode dar certo”, já dizia Nego Bispo.

Mas pra sociedade capitalista não colapsar, as escolas precisam continuar como estão, funcionais em sua mesma estrutura básica, em sua arquetipia. Por isso nada muda substancialmente. A gente só se adapta. E enquanto o capitalismo continuar conseguindo se retroalimentar da sua própria desgraça, assim será.

Aí, o que fazer pra não capitularmos? Docentes, gestores, profissionais da educação, famílias, crianças, jovens...?

Meu sentimento (e entendimento) é que a resposta está na ancestralidade.

Sim. Pode até parecer clichê hoje em dia, em como está na moda falar isso, mas, o modelo possível disso tudo já é o modelo ancestral de educação comunitária. É só olhar pras práticas educativas dos povos indígenas e quilombolas.

Uma perspectiva de comunidade de aprendizagem, dependendo de como for tecida, abraçaria grande parte da nossa demanda social comunitária e daria um viés revolucionário e transformador real para as escolas, nos termos de um pleno envolvimento social - em contraposição a um des-envolvimento, como dizia Nego Bispo.

Mas o que seria uma comunidade de aprendizagem?

Seria as escolas se transformando em grandes centros de aprendizagens coletivas, científicas e populares, passando por uma reformulação profunda da sua lógica de funcionamento e estrutura, gerando educação viva e formação integral real, sem se tornarem reféns dos modos e procedimentos propostos pelo sistema oficial de educação somente, mas se utilizando deles em favor das demandas específicas da comunidade, aderindo abertamente às lógicas de envolvimento social dos povos originários e quilombolas, funcionando junto, focando nas demandas reais e fundamentais comunitárias, proporcionando senso de pertencimento a todes es envolvidos nesse processo.

A cultura escolar passaria por um processo de transformação ontológico, através de uma profunda reconstrução de consciência histórica, dada a possibilidade da compreensão e inserção de culturas históricas não hegemônicas ressignificadas, anulando epistemicídios, genocídios, misoginia, racismo, implodindo o patriarcado e o capitalismo por dentro, a partir da sua própria estrutura, nos ensinando a ser outra coisa que ainda não sabemos ser, mas que pra sabermos como será, precisamos começar.

Diz-se que Exu já dizia: dá o passo, que dou o caminho.

Isso é filosifa ancestral.

Os povos indígenas e quilombolas têm os caminhos. Precisamos olhar pra eles como nossos mestres e nossos orientadores nesse processo de refundação educacional e social.

Com coragem de arriscar mudanças. Porque, se não, tudo vai sempre ser mais do mesmo na escola, não importa quanta tecnologia se insira, não importa quantas alterações metodológicas se faça. Enquanto a escola não mudar em sua estrutura arquetípica, epistêmica, ontológica, nada vai mudar de fato e vamos continuar reproduzindo o status quo.

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