quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MANIFESTO PARA NÓS, EXTREMISTAS

(DE DIREITA E DE ESQUERDA)


Qualquer mudança política que não se entranhe nos sentimentos e nas percepções das pessoas – que não obtenha seu consentimento, engaje seus desejos e permeie seu senso de identidade – está provavelmente fadada a não durar muito. A questão é muito simples: as pessoas estão convictas de que uma posição “central” é incapaz de mudar algo. Então elas vão para os extremos. Mas estar “no centro” não significa abster-se da discussão política. Significa entender o que se passa nos extremos, e não coadunar com a violência gerada pelos extremismos. Quando vemos somente ódio nas pessoas, é porque nós também estamos embebidos nele, e odiamos. Eu também sou opressor, só pelo fato de "sofrer menos" do que algumas pessoas mais excluídas do que eu (como as pessoas pobres e LGBTI+, por exemplo, que, na prática, são as que mais sofrem, em todos os sentidos). Nessa campanha, discute-se de tudo, menos propostas de campanha. As pessoas estão jogando suas emoções pra fora. E isso é necessário, quiçá inevitável, numa sociedade tão excludente. Existem, sim, pessoas racistas, misóginas, homofóbicas, xenófobas, de direita e de esquerda. Acredito que sempre existiriam e sempre existirão, embora entenda que a falta de informação de qualidade (e a reflexão sobre ela) aumente muito esse sentimento. Mas acredito que grande parte das pessoas está mesmo é disposta a pagar um alto preço por uma ruptura política, e enxergam essa ruptura em algum dos candidatos. O caráter dramático da situação é permitir que as pessoas que querem essa ruptura e que tem um discurso anti-institucional e/ou anarquista, rumem para a violência, por se sentirem “sem saída”. Sabemos como o ultraliberalismo absorve e apóia qualquer possibilidade estratégica de mudança social, desde que essa mudança sirva ao mercado. Se você é pobre, sente isso todo dia, toda hora, na prática. O grande defeito da esquerda convencional (e muitas vezes radical e desinformada) foi não transferir, para a soberania popular, o poder de direção do país. Essa esquerda, com sua patologia dirigista, não foi capaz de entender que isso era necessário. “Vocês não querem representação? Tudo bem, a gente pode defender um tipo de democracia cada vez mais direta e mais próxima”. Mas isso nunca aconteceu. Isso nunca apareceu na pauta principal da esquerda no Brasil. Na verdade, o que ficou para muitos de nós, da favela e das comunidades, apesar das políticas assistencialistas mais que necessárias, é que não importa se é de direita ou de esquerda, parece que nada muda mesmo. Infelizmente, essa é a sensação: que político é tudo farinha do mesmo saco. Uma ditadura (militar?) declarada é uma aberração social e desumana porque o Estado legitima a matança do diferente. Mas nossa democracia se apresenta, dia a dia, como uma ditadura disfarçada, onde mulheres, pretas, pretos, pobres e pessoas LGBTI+ são massacradas, moral e fisicamente, todos os dias, sem piedade. Na prática da vida, ambas as políticas se tornam intoleráveis. Mais para uns, menos para outros. Mas foi mesmo durante os períodos democráticos (antes e depois do regime de 1964-1985) que afloraram grandes e importantes movimentos sociais de transformação real das comunidades. Movimentos como os Círculos de Cultura, os atuais Pontos de Cultura, e as múltiplas organizações sociais educativas desinstitucionais (de outrora e de agora), desenvolvem e oportunizam ações revolucionárias reais, onde as pessoas da própria comunidade desenvolvem ações de transformação a partir das demandas reais e locais de suas próprias vidas. São as transformações micro sociais. Tais movimentos geralmente são realizados através de um processo educativo autogerido, às vezes com investimento do Estado, mas sem sua “direção” direta – apesar da “prestação de contas”. Acredito que uma política pública presente deveria ter dado ao povo a soberania para o seu próprio desenvolvimento, através de projetos nos quais essas pessoas mesmas pudessem gerir seus próprios movimentos de mudança, baseados em suas próprias demandas e desejos, do micro para o macro, a começar pelas comunidades, todas elas, em todos os cantos. Agora, graças a sua (ir)responsabilidade social, a esquerda amarga o preço de não ter apoio de boa parte das classes empobrecidas do Brasil que, por sua vez, não é fascista, mas está também (assim como eu) indignada com a atual situação política do país. Os últimos governos lançaram algumas bases importantes para uma política popular, mas foram bases insuficientes, dada a variabilidade dos desejos e das demandas. Já a direita só se importa com essas bases (mínimas!) quando elas se mostram mercadologicamente viáveis. As pessoas sentem isso. Por isso, para elas, dá quase no mesmo votar em Haddad ou em Bolsonaro. Alguns acham esse último até melhor, já que vivemos mesmo numa ditadura (disfarçada) do mercado e do consumo. Já alguns, veem em Haddad uma salvação (como muitos viram em Lula e hoje são antilulistas e antipetistas fundamentalistas), porque sabem que “a gente fica menos pobre num governo de esquerda”. As pessoas sentem tudo isso. Nesse processo, a (ir)responsabilidade da esquerda e das universidades é grande, pois não se empenharam o necessário, e em tempo viável, em desmanchar o monopólio da mídia e do conhecimento “científico” restrito e focar na democratização real da informação e do saber. Eu sei que se tentou, e sei que se conseguiram avanços. Mas foram insuficientes, e sempre o serão, enquanto a estrutura política continuar enraizada na ideologia colonial que não se desfez, apesar da “teoria cultural”, dos seus “estudos pós-coloniais” e da “ética do cuidado”. Mas, na prática, quem sabe o que é isso? Onde está isso? Discute-se muito, sobre tudo, mas pouco se faz. A política e o conhecimento “científico” precisam sair do congresso e da universidade, precisam ir pras ruas, servir ao povo pobre, historicamente massacrado. Quantos professores universitários você conhece, que abrem mão de parte do seu salário, em função de movimentos reais e diretos contra a pobreza? Ou mesmo se empenham em “se investir” diretamente nas comunidades, indo lá, fisicamente, dedicando seu conhecimento, tempo e dinheiro, às pessoas marginalizadas? Enquanto não pensarmos e agirmos sobre tudo isso, nem ditadura, nem democracia “passarão”. Quem é da comunidade, da favela, ou estuda um pouco de História e é minimamente sensato, consegue perceber que um governo do modelo do regime militar não é um governo que vai acabar com a corrupção, que vai oportunizar mais emprego, que vai investir em educação integral, e que vai garantir a segurança geral das pessoas. Pelo contrário: a "polícia vai ditar política", e quem não obedecer (ou for preta, preto, pobre ou LGBTI+) morre antes de ser preso ou torturado. Mas isso acontece com o povo pobre todo dia. “Então, nós, que passamos por isso todo dia, queremos que vocês sintam um pouco ‘a real’”. Quem é da comunidade, da favela, ou estuda um pouco de História e é minimamente sensato, sente (SENTE!) que, governo algum, até hoje, democrático ou ditatorial, promoveu uma liberdade real e irrestrita, pois a democracia atual, nas favelas e comunidades mais pobres, ainda é uma ditadura da classe média e rica, aristocrata, da moral restritiva, do mercado e do capitalismo selvagem. E, desse pote, apesar das boas ou más intenções, tanto Bolsonaro quanto Haddad bebem seus goles. E mesmo que as “políticas de assistência social” e de “respeito às manifestações das diferenças individuais” sejam os maiores ganhos da política democrática, mesmo essa democracia não conseguiu garantir esse “básico” para a maioria da população. Entendo que, para isso, o caminho é mais que longo. Mas nos tempos de hoje, a esperança é ansiosa. Ela não quer esperar “algumas gerações” para viver a mudança. A ação social real tem que ser imediata, pois a fome e a necessidade de trabalho são imediatas. O sofrimento é imediato. As poucas conquistas básicas dos últimos anos são louváveis para os que a receberam e mais ainda para os que dela souberam fazer bom uso. Mas grande parte da população ainda está com fome, e ainda não tem emprego – consequência direta da "ditadura da classe média", da moral restritiva, do mercado e do capitalismo selvagem disfarçados de democracia. Apesar dos louvores da ONU e das estatísticas do mapa da fome da FAO, entendo que a maioria das pessoas que busca essa ruptura através da violência, ainda não se sentiu beneficiada por essa democracia. Mas como ela já vive essa violência, infelizmente acredita que "uma violência a mais ou a menos tanto faz". E seja qual for o motivo, para elas, não importa agora. O que importa é “testar uma mudança, seja ela qual for”. A ideia de mudança imediata é sempre uma aposta viável pra quem sempre está à margem, porque quem está à margem já não aguenta mais. Quando eu falava nos congressos científicos e pros colegas de pesquisa (de esquerda e de direita) das dificuldades do pobre na universidade, me chamavam de “vitimista”, ou me olhavam complacentes. Se eu fosse vingativo, saberia muito bem em quem votar. Mas continuo no meu exercício diário de tentar ser sempre mais sensato. Então tomemos cuidado, e cuidemos, no sentido pleno do termo. Acolhamos as pessoas, em vez de brigarmos com elas. A vida do dia a dia, pra quem está à margem, é uma briga de vida e morte a cada segundo. Precisamos que conversem conosco. Sem ar de autoridade, sem moralidade, sem superioridade, sem vontade de nos convencer. A maioria de nós não quer ser convencido. Queremos ser ouvidos e atendidos. Principalmente as pessoas cujas necessidades básicas ainda não foram supridas, seja lá o motivo qual for. Com amor, olho no olho, paciência e coletividade, conversemos. Não tente mudar o voto das pessoas. Tente dialogar com elas sobre isso. Falar e ouvir. Principalmente ouvir. As pessoas votam em quem elas quiserem. Uma das poucas coisas que a democracia garantiu para todos nós, sem exceção, foi isso: poder votar em quem quisermos. É a única liberdade (apesar da obrigatoriedade) que, de fato, é sentida e praticada por todos. Logo, será colocada “a toda prova agora”. E tentar mudar o voto de outrem sem seu consentimento é agir contra o próprio princípio democrático pelo qual se defende. Se se luta pela democracia, essa luta não pode ser uma imposição, nem direta, nem indireta. Tentar “mudar a cabeça das pessoas sem consentimento” é tão inviável quanto insensato. E antidemocrático. “A liberdade tá aí, as pessoas votam em quem elas quiserem". Coibir os movimentos não violentos de manifestação de opinião, seja para este ou aquele candidato, é violência. Sinceramente, espero cada vez mais, nesse processo, que a violência não precise ser pano (nem plano) de fundo, nem da direita, nem da esquerda.



OBS. Entre as aspas estão os comentários que eu ouvi e li por aí, conversando com as pessoas na rua esses últimos dias. Assim como estão também pensamentos e reflexões de sociólogos, filósofos e educadores (dos quais me incluo). Mas como não concordo com propriedade intelectual, então tá dito, sem referências mesmo, pra quem quiser ler.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A GESTAÇÃO DA AFETIVIDADE IMPOTENTE: O CONHECIMENTO HISTÓRICO COMO FUNDAMENTO E FERRAMENTA DE MANIPULAÇÃO CULTURAL



O movimento político contemporâneo no Brasil tem nos direcionado a uma profunda necessidade de análise do nosso passado cultural, embora, que, essa análise e reflexão, por si só, não têm surtido efeito de transformação do acontecimento.

Resgatam-se fatos, temas e memórias da História com objetivo de entender algumas questões que, filosoficamente, relacionam-se diretamente à ressurreição do mito do Estado (autoritário) que, por sua vez, fundamenta-se no mito da ordem e do progresso.

A ressurreição e empoderamento desses mitos têm se materializado no desejo imediato de intervenção militar na política (resgate dos valores ético-políticos de 64-85); no assassinato político, na prisão de figuras-chaves de um processo de representação democrática, e na exaltação institucional do ódio às diferenças culturais, ao preconceito e ao racismo, legitimados pelo Estado.

Apesar das milhões de pessoas mobilizadas nos movimentos contrários a esses diletantismos, paira no ar um sentimento de impotência frente ao acontecimento.

Carregados por um movimento de construção de imagens simbólicas de representação intencional, coordenado internacionalmente, tecido e veiculado por setores específicos da sociedade, constituímo-nos num movimento coletivo inconsciente que atua no emocional e verte em ciclos de consciência – aura semelhante a que preconcebeu 1964, 1939, 1824, por exemplo –, fazendo gerar na população uma sensação de “justiça cumprida”, de “mocinho” na batalha com o “bandido”, motivada por impulsos e pulsões que se fundamentam numa ilusão coletiva de verdade (arquétipo histórico), que cria um ambiente favorável à sensação de que há transformações em curso. Mas, que, filosoficamente, não ressignificam o acontecimento.

Para localizarmos, descontruirmos e ressignificarmos o acontecimento, temos que caminhar além da reflexão histórico-crítica do fato estabelecido e convencionado, e nos posicionar como hermeneutas da História.  

Localizar-se contra tais acontecimentos, sem encabeçar um contragolpe espelhado (repetição do passado), exige um nível de maturidade que a simples criticidade histórica não consegue dar conta, pois essa criticidade se limita à luta política, e este movimento significa mais do que uma luta política. Trata-se de lidar com um pensar, com um sentir, com um emocionar, gestados num arquétipo histórico intransponível por imperceptível.

Não se trata de assumir uma ou outra opinião; uma ou outra posição. Trata-se, pois, de nos localizarmos em um movimento de transformação de si, operando transformações internas no self. Trata-se de uma relação para além da política e da economia; para além da direta e da esquerda. Trata-se de uma relação (in)consciente. Trata-se de uma relação espiritual. Trata-se da problematização de um arquétipo constituído a partir de um discurso de verdade que se viraliza por seus regimes de verdades e que se baseia e se estrutura numa forma de pensar e fazer uma política e uma economia que excluem as diferenças culturais. Logo, estamos lidando com construções e significações da ordem do sentir, do emocionar.

Trata-se, pois, de identificar, desconstruir e ressignificar nossos arquétipos históricos, individual e coletivamente, num processo conjunto de refundação de nossa identidade, do que seria mesmo uma identidade, refazendo, assim, o caminho arquetípico da construção do inconsciente e da memória.

Quando localizamos as ações dos discursos das verdades históricas e de seus regimes de verdades na construção do conhecimento Histórico, epistemológico ou doxológico, reconhecemos o conhecimento Histórico como fundamento e ferramenta de manipulação cultural.

As formas como a História é constituída (tratada, lida, contada, manipulada, investigada, narrada, escrita, imaginada, diagramada, fotografada, filmada, digitalizada, interpretada) enquadram-se em um padrão de comportamento herdado, derivado de uma estrutura cultural e psíquica que possibilita o desenvolvimento de um comportamento coletivo e individual que vai sendo preenchido e atualizado, formando assim um corpus cultural, e, que, graças à velocidade da informação e à grande quantidade de símbolos possíveis de serem veiculados na atualidade, em pouco tempo a História se torna um arcabouço epistemológico que baseia um mito a ser construído e mantido, e, assim, vamos reestruturando-nos enquanto uma sociedade hostil e segregacionista.

Isso se deve ao poder que a memória simbólica inconsciente tem de afetar nossa consciência simbólica. E, em certa medida, nossa sociedade se transforma através da influência desse inconsciente simbólico atuando em nosso consciente coletivo e individual.

Esse processo acontece por meio das imagens que vamos vendo já desde crianças, imagens que vão fundando nossos arquétipos e que nos constituem enquanto seres culturais.

Se somos animal symbolicum; se nossas relações são mediadas por um sistema de signos; se nossas relações de nós com nós mesmos, com o outro e com o mundo se processam através do espelhamento das afetividades, materializadas nos signos que estruturam nossa percepção/fundação cultural, é possível vislumbrar a estrutura arquetípica que torna fundamental nossas infinitas configurações e combinações, que nos mobilizam enquanto seres culturais.

Daí se processa a formação estrutural da verdade em nós – fatos, temas e memórias de uma estrutura universal e individual, construídos e reconstruídos de geração em geração, fundando assim, uma amálgama cultural.

E apesar de nossa diversidade cultural atuar numa vasta produção de diferentes símbolos, nossas formas de interpretação mnemônica, factual e temáticas da História se processam através das mesmas intencionalidades simbólicas, auxiliando-nos a compreender/construir a verdade histórica cultural como um grande jogo de cartas marcadas, que nos mobilizam num grande movimento teleológico.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A DESESCOLARIZAÇÃO E O PODER SOBRE SI MESMO - a des-escola de si como alternativa à pragmática do ensino




Esse texto é um desabafo - revertido numa análise filosófica derivada da minha realidade de educador - e uma opinião (entre tantas outras possíveis) sobre a escola (neste tempo presente específico que se refere ao meu) agora. 

Tenho sentido cada vez mais na pele o que tantos pensadores têm falado da escola (direta ou indiretamente). Que dociliza corpos (Maturana), que bitola as atitudes (Goethe, Illich), que unitariza nossas formas de ser a partir da institucionalização do ser (Reimer, Illich, Foucault), que sucateia as experiências (Nietzsche), que confunde autoritarismo com autoridade (Arendt), que produz semicultura (Adorno), que generaliza a verdade através do discurso (Foucault) e dos jogos de linguagem (Wittgeinstein, Habermas), que deturpa a espiritualidade (Wilber), entre tantas outras críticas!

Pedro Pagni (2014, p.185), ao se remeter a Foucault (especificamente à obra Vigiar e Punir, 1991), destaca que a escola é um dos locais em que ocorre a arte da circunscrição do corpo a um espaço físico, a um tempo e a uma função específicos, sob o olhar vigilante, capaz de unificar as suas características multiformes e homogeneizar os corpos individualizados, tornando os indivíduos corporificados segundo uma fôrma. Nessa formação, a sua atividade seria controlada pelo tempo disciplinar instaurado nessa instituição e em sintonia com a maquinaria do poder existente; os seus movimentos seriam adequados a um ritmo homogêneo; e o seu treinamento seria determinado por uma série de gestos predefinidos e, com isso, estaria preparado para desempenhar positiva e eficientemente a sua função no corpo social.  

Contudo, tenho noção da multiplicidade de diferentes tipos e formas de escolas existentes hoje na sociedade, por isso tento (quase sempre sem sucesso) não generalizar o termo, frente ao que a realidade nos apresenta. Acredito que generalizar o termo seria lidar com o tema de forma imatura e superficial, porém confesso uma grande dificuldade em tratar da escola, especificizando-a demais. Nessa perspectiva, refiro-me ao ethos da escola, a sua lógica de funcionamento na contemporaneidade, e não genericamente à escola em si. Por isso meu intuito é - enquanto trato desse tema - tentar deslocar a questão do PODER político de governo, presente nesta instituição, para a questão do PODER em função da problemática ética do cuidado (que também é política, mas em outra dimensão), ao tempo em que busco relacionar essas questões
  
Concordo efusivamente com a educadora Ana Thomaz, quando destacado que nada tenho contra a existência da escola. Quando aqui falo escola, refiro-me à escola que vive dentro de mim, à escola que fui aprendendo a criar dentro de mim. Assevero que essa escola foi uma escola que me ensinava que já existia uma realidade pronta, que a gente sabe que é uma ficção, no sentido de que ela é uma construção de um sistema da qual nós vivemos. Por isso me refiro à escola de mim, enquanto o que critico mesmo é a obrigatoriedade escolar (de uma forma implícita, enquanto busco tratar da questão do poder) e, exatamente pelo fato de enxergar na desescolarização uma ideia de promover a diversidade e reconhecer alteridades, seria contraditório defender o fim da escola, ou a sua destruição.  



Acredito que quanto MENOS PODER instituído entre nós, maior a possibilidade de igualdade em nossas relações; maior o respeito às individualidades, às nossas subjetividades. Quanto menos poder instituído, mais espaço para o aprendizado não traumático, para as dúvidas, para os erros. A reflexão, o pensamento TRANS-formado, que nascem da dúvida, e não da certeza ou de "uma" verdade absolutizada, são aqui as matrizes para uma boa convivência com o outro e com o mundo, adquirida, porém, através da melhora da relação consigo mesmo, a partir do CUIDADO DE SI, a partir da criança que permanece dentro de nós, e que ainda não faz parte da adultez amadurecida, presente nas instâncias formativas de nós mesmos e do outro durante a formação humana. 
 
Adentrando numa problemática pedagógica, tenho acreditado que o grande PROBLEMA DA EDUCAÇÃO ESTÁ NAS RELAÇÕES DE PODER. Não me refiro ao poder em si, per si, mas ao PODER COMO VERDADE, o poder POLÍTICO, aquele que molda a ação e imaginação das condutas éticas e estéticas de gerações inteiras enquanto vamos nos tornando adultos e, repetimos, com as gerações que chegam, o que fizeram conosco. Quando penso nesses termos e nessas relações, a primeira questão que me vem é COMO ESSAS RELAÇÕES DE PODER SE PROCESSAM DENTRO DA GENTE NA ESCOLA.

Do currículo à legislação, da estrutura física das instituições às características psicológicas dos educadores e educandos de uma instituição, acredito que não só PODEMOS, como devemos nos contrapor ao discurso iluminista (Aufklärung) de uma razão e de uma cientifização que se colocam superiores aos sentidos, aos sentimentos, à intuição, dando mais atenção às subjetividades de si, e como essas constituem a base do ser sujeito no mundo - um excelente exercício dessa desconstrução em si é a convivência constante com crianças, em ambientes livres da normatização e regulação escolar, que nos faz por vezes voltar à criança de nós mesmos, a fim de nos entendermos em nós mesmos e, consequentemente, o nosso papel nesse mundo. Para mim, educadores e educandos (talvez a escola enquanto instituição mercadológica não se interesse por isso) podem recuperar esse objeto comum de si mesmos ao ser no mundo repensando o sentido de suas vidas, na tentativa de resistir às formas de regulação e normatização a que a escola nos subjuga, fazendo a vida irromper aí, colocando-a a serviço da CRIAÇÃO.

Logo, essa crítica se dirige à escola de mim - que fora construída em mim -, e parte de uma institucionalização convencional, tradicional, generalista, que utiliza conhecidos dispositivos de controle como "direção", "coordenação", "cadernetas", "provas", etc. - e que, apesar dos “sujeitos que lá fazem a diferença”, institucionalmente continua a mesma enquanto homogeneizadora dos discursos de construção da verdade - e nessa verdade, a construção da vida (de UM modelo de vida). Refiro-me, no que tange à escola, ao seu PODER DE MOLDAR não só uma ou outra pessoa, mas sim grandes grupos sociais de gerações inteiras – e, por si, criar e manter, nesse tempo-espaço, esse grande formato de sociedade, as Nações, os Estados, e suas incontáveis e incontornáveis barbáries frente às diferenças individuais e coletivas.

Não se trata de negar o poder. É óbvio que disputas de poder sempre existiram, e são inevitáveis. Enquanto existirem relações humanas nesse espesso caldo de cultura (Kultur), por mais cuidadosos e responsáveis que tentemos ser com o poder que emanamos e com o poder que a nós é emanado, sempre haverá disputa. Tenho pensado muito nisso nesses últimos anos, e pensado fundamentalmente na possibilidade de uma FORMA SAUDÁVEL DE DISPUTA NESSAS RELAÇÕES DE PODER. E cheguei à conclusão, ainda que provisória, de que a competição não seria essa forma - não há competição saudável em termos de mercado -, afinal, a relação de poder não precisa ser uma disputa no sentido de competição, pois sim, pode ser uma disputa no sentido de discussão, de debate, de diálogo. Paulo Freiretratara disso, mas o que quero resgatar aqui, nos termos dessa dialogia, não se refere tanto à estilística político-freiriana, mas a uma estilística da existência, a partir da coragem de verdade, procedido através do resgate de si mesmo, para poder cuidar de si, do outro e do mundo.  


Por tanto, destaco que o debate e a discussão de que trato aqui NÃO procuram se aproximar de uma retórica, da luta da palavra em busca de uma verdade por polida e bem argumentada, fazendo o pior parecer melhor, a mentira parecer verdade. O debate, a discussão, o diálogo, nos termos que estabeleço aqui, fundamenta-se no primor da sinceridade, da palavra a serviço do dizer (e não do buscar) a verdade (verdade aqui entendida como o dizer sincero sobre aquilo que se sente), do chamado dizer parresiástico, nascido em Sócrates, mas melhor definido pelos filósofos estóicos e cínicos, fundamentado no dizer a serviço do resgate de si mesmo, a fim do ser buscar se conhecer e se entender para poder cuidar de si (conhece-te a ti mesmo, entende a ti mesmo, e cuida de ti mesmo). Essa nuance do ser/dizer, resgatada pela hermenêutica do sujeito foucaultiana, e fundamentada na desconstrução da retórica (que tem estruturado toda a construção do poder político sobre si) em função da parresía (coragem de sinceridade, de verdade) estabelece o debate, a discussão, o diálogo, em função do serviço a si mesmo, para poder servir à comunidade - a partir de uma humanidade fundada na verdade da sinceridade -, deslocando o sentido do poder.

A verdade não reside nas respostas convencionadas, e não provém unicamente de nós, mas é indício de nossa experimentação do mundo, dos outros, e de nós mesmos. Logo, cuidar do outro e do mundo é também cuidar de si mesmo, ao passo que cuidar de si mesmo é também cuidar do outro e do mundo, pois há aqui uma relação interdependente entre eu, você e o nosso entorno. Esse cuidado de si (que ultrapassa o simples domínio de si), é da ordem da afetividade, das emoções e das paixões, submetidas à prudência raciocinada a partir de uma sinceridade regozijada. É esse conhecimento, entendimento e cuidado que fará o ser se conduzir de forma respeitosa e ética consigo, com o outro e com o entorno, respeitando limites e ao mesmo tempo se mantendo livre por si só, de dentro pra fora, e não de fora pra dentro - através da obediência às convenções estabelecidas pela política e pela moral vindas de fora. Assim, a reconstrução do mundo não se efetiva pela simples implantação de um forte poder exterior.

Ao buscarmos esse cuidado e esse ser/dizer parresiástico, nossa personalidade e nosso caráter moral se transformarão em função de nós mesmos, no sentido geral; e em função da vida coletiva, no sentido particular. Logo, esse cuidado é, pois, um poder político, que desenvolve, na essência da existência humana, a nossa individualidade coletiva (por isso esse cuidado de si não é egoísta), e a nossa coletividade individual (porque não é generalista, preza pela liberdade individual, ao tempo que preza pela liberdade e respeito ao outro e ao mundo).

Por fim, quando me refiro à disputa no sentido de discussão, de debate, de diálogo, reitero as palavras de Pedro Pagni e Divino José da Silva (2007, p.266), de que não é suficiente tentar superar os limites da educação apenas pelo diálogo, mas é necessário manter a tensão entre experiência e linguagem, própria ao trabalho educativo e, ao mesmo tempo, da infância que o compreende.

Por isso tem se tornado cada vez mais óbvio que quando o poder convencional nos impregna, acabamos refletindo superficialmente sobre nossa educação, e consequentemente menos livres e menos plenos nos tornamos com nós mesmos, com o outro, e com o mundo, porque DEIXAMOS DE LADO o CUIDADO. Por isso venho tentando encontrar – e me referir – a um PODER CRIADOR que não é competitivo, mas cooperativo que TRANSforme as misérias da vida, e não só nos forme nela, na medida em que respeitamos nossos limites conosco, com o outro, e com o mundo e, assim, aprendemos com o poder do outro, e com o poder do mundo. Assim nos complementamo-nos em nós mesmos, no outro, e no mundo, e encontramos nosso espaço no RESPEITO, sem a necessidade de certa im-posição moral. 

Eis a plenitude, que é a liberdade que temos. E essa liberdade, nossa maior plenitude. Eis a grande revolução pós-moderna: a reflexão sobre si, gerada por um CUIDADO DE SI, por uma pragmática de si. Eis a essência do procedimento da governamentalidade foucaultianaATIVAR O PENSAMENTO PARA PODER GOVERNAR A SI MESMO, mantendo a prática da vida alinhada ao que se pensa.

   
De si para si, todo o poder. O poder de um sobre outrem, quando seleciona, amarga; quando separa, restringe; quando impõe, violenta; quando coordena, dirige. Nesse padrão, resta pouco para acontecer de forma natural (bío), e menos ainda para acontecer de forma livre – aos filósofos conceituais, refiro-me à formação cultural (Paideia), que tem se tornado universal, absoluta, teleológica, metafísica, propedêutica, modernizante como formação humana (Bildung), e esta, restrita à escolarização (Erziehung). Nessa lógica, praticamente não há espaço para autopoiese*, menos ainda para o que pode vir após.


Tenho percebido, cada vez mais, que a lógica dos estabelecimentos de ensino aos quais tenho me relacionado – como professor, como pai, como crítico – tem se pautado sempre numa essência existencial de formação (e não TRANSformação) para o mercado, a partir do estímulo da concorrência em diversos níveis. Escolas que tem histórico revolucionário na educação, ou mesmo grande fama de serem "instituições diferenciais", estão se rendendo a uma realidade que sucateia a arte de viver, enquanto são vendidas a um tipo de sistema pós-humano de força mercadológica sem igual, seguindo uma preponderância absolutista, através de uma pragmática meramente (in)formativa, na qual o aprendizado se funda numa inspiração convencionada por um poder meritocrático e socialmente injusto.

Por isso, e por tantos outros motivos, a escola não tem mais me empolgado (nem mesmo algumas daquelas que se constituem como referenciais de diferença, apresentadas no documentário Quando Sinto que Já Sei ou no livro Volta ao Mundo 13 Escolas). A escola, como modelo estipulado como tal – institucionalizado e generalizante –, localiza-se, em mim, para mim, como uma das maiores representantes da imposição de um modelo – de uma única verdade, de uma única possibilidade – sobre tantas/os outras/os modelos e possibilidades possíveis de serem experienciados/as e CO-criados/as.

Nessa medida, a escola tem transformado meu indivíduo num sujeito desviado de mim, impresentificável e não-diferendo (nos termos de Lyotard). Nesse universo pós-democrático, onde TUDO virou mercadoria, reside o objetivo institucional instrucional da escola em mim: desempoderar para controlar. Nessa medida, arrisco uma comparação até descuidada entre a escola e a TV: ambas múltiplas no e do mesmo, essencialmente encaixadas numa lógica de manutenção social resumível e imediatista, com um fim/objetivo específico pautado numa lógica de mercado. Mais preocupante ainda se torna essa comparação quando lembro o potencial que têm/tiveram (a escola e TV) na formação da mentalidade de gerações.   

Nessa escola que fora construída dentro de mim, praticamente não há espaço para a experiência (Erlebnis). Até mesmo a experimentação se torna refém de um curso planejado, sofrível e discreto como um rio desviado artificialmente serve à natureza. Essa escola de mim tem sido metodologicamente organizada para impor uma só ordem geral. Categorias como “planejamento de ensino”, “grade curricular” – ou só “currículo” –, “domínio culto de linguagem”, “chamada”, entre outras tantas categorias impositivas, são geralmente materializadas nas grades das portas e janelas dos prédios onde as escolas funcionam, em seus sinais de fábrica, em suas reflexões restritas a 50 minutos (ou aos seus múltiplos). Um PODER absurdo sobre as pessoas, sobre suas vidas, sobre o que querem ser, SOBRE O QUE PODEM SER SOBRE ELAS MESMAS

essa escola de mim simplesmente tem sido a mantenedoura dessa sociedade doente e cansada tal qual está, pois nada TRANS-forma de fato - só forma, forma, e forma na grande lógica essencial do mercado internacional. Profundamente, a escola mantém tudo na essência da concorrência, da competição. No contexto das políticas educacionais em curso no Brasil, o projeto curricular – tão essencial à transformação real da escola –, expressa em leis, normas, modelos, práticas pedagógicas, orientações, grades, livros didáticos, instrumentos de avaliação, entre outros mecanismos e dispositivos discursivos, simplesmente traduz concepções que configuram grandes disputas de poder completamente administradas, parte de um mundo completamente administrado – no sentido adorniano da palavra.



No contexto conceitual do termo política [enquanto administração de.], essa escola de mim (e o modelo de sociedade a qual ratifica) se aproxima muito da ciência (ciência política) enquanto forma de organizar os humanos: racional, lógica, propedêutica, de prova

Tenho quisto incessantemente – principalmente para as crianças – uma educação num sentido muito mais amplo, mais comunitário, uma educação que abraçasse mais a arte de si do nosso senso comum, e menos a ciência positiva; uma educação cuja política se aproximasse mais de uma arte (arte política) do que de uma ciência. Acredito que aqui reside a grande problemática do poder – quer sobre o outro, quer sobre si. 


Infelizmente, essa escola de mim tem feito QUASE tudo, MENOS contribuir com a construção de uma governamentalidade, que, quando ativada, poderia nos localizar na perspectiva de que quanto mais a gente cuida da gente, mais a gente aprende a cuidar do outro, e mais a gente aprende a perceber aquilo que o outro realmente precisa de nós – e nós dele. Quando a gente cuida de si, aprende a cuidar do mundo naquilo que o mundo realmente precisa – e nós, do mundo.

Acho que a escola precisa ser desconstruída para ser reconstruída nos termos desse CUIDADO. Mas talvez dessa reconstrução, reconstruiremos tudo, menos outra escola. Aqui se localiza outra importante problemática dessa discussão: se não escola, o que toma o seu lugar? O que as pessoas farão sem ela? Aqui surgem muitas perguntas. Mas repito: muitas respostas residem na condição do PODER SOBRE SI.

Essa condição, acredito, encontra-se na co-autopoiese, na co-criação, no equilíbrio sobre as circunstâncias das felicidades e infelicidades das intempéries e incertezas da vida, tão comuns a todos nós, em qualquer momento, e que nos proporcionam tantos aprendizados. Eis a importância da organização (e NÃO coordenação), traduzida na (auto)DISCIPLINA - e não na disciplina excessiva e exaustiva do "yes, we can" tão difundido pela neurose da produção a qualquer custo - frente aos sofrimentos e ao penar que fazem parte da criação, do aprendizado, da nossa vida. A disciplina enquanto organização faz parte de nossa vida quando seu ordenamento se traduz como auto-organização, e não como imposição de outrem sobre si, mas sim enquanto poder de si sobre si mesmo. 

E eis que voltamos à questão do cuidado de si: só conseguimos cuidar do outro e do mundo quando antes e concomitantemente cuidamos de nós mesmos. E tenho sentido que a escola (de mim) vem se AFASTANDO cada vez mais desse cuidado, desse aprendizado, pois tem se apoiado excessivamente num poder destruidor, que é o poder da meritocracia ultraliberal, do hipermercado, da propedêutica formativa, por uma excelência produtiva - que serve a quem mesmo?

Aprender é ser, e a escola de mim não tem conseguido me deixar – nem a mim, nem aos meus – ser livre, ser pleno. Educar é deixar relacionar-nos entre tudo e todos, a partir do zelo, do cuidado, e não simplesmente nos restringir aos nossos pares lógicos – cronológicos, analógicos, epistemológicos, doxológicos - e às suas verdades absolutizadas. Por isso tenho acreditado que devemos difundir mais a ideia de que EDUCAR E ESCOLARIZAR SÃO COISAS MUITO DIFERENTES. Educação (formação humana traduzida em transformação) não se resume à escolarização. Isso é tão óbvio, mas não parece. Não parece óbvio que nossa sociedade, tão cansada e doente, tem caminhado exatamente no sentido da terceirização da formação, da educação, da criação dos seus. E nisso, tem se perdido NOSSO senso de COMUNIDADE. 

Só frente às misérias do nosso presente (tão bem apresentadas pela TV global e pela História convencional didático-escolar) que essa escola de mim ainda se apresenta cheia de possibilidades. É quando a educação se resume à escolarização, ou mesmo quando a escolarização faz parte da Educação no sentido de uma formação que desumamiza, em nome de uma lógica segregacionista. Tem-se esquecido cada vez mais quanto educar é VIVER, e não só reproduzir vivência. No ato de educar, estão todas as instâncias do ser. No ato de escolarizar, apresentam-se algumas possibilidades a essas misérias de nós mesmos. A ESCOLA NOS FORMA NESSAS MISÉRIAS para podermos aprender a lidar com elas e sobreviver, por isso não conseguimos eliminar as presentes e múltiplas formas de Auschwitz.

Tenho acreditado cada vez mais que uma des-escola de mim seria essa superação, pois TRANSforma, para além da forma, através de uma cura de mim mesmo, por mim mesmo, para mim, para o outro e para o mundo. Uma abertura sem precedentes, a partir do conhecimento de si, do entendimento de si, e do cuidado de si, para um aprendizado de si. Por isso venho repetindo pra mim mesmo o que tanto tenho sentido: será que a grande revolução pós-moderna é essa reflexão sobre si, esse cuidado, essa TRANSformação através de uma pragmática de si, em detrimento a essa pragmática do ensino?

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* Entendo o conceito de autopoiese como derivado de uma tradição subjetivista clássica que, em alguns âmbitos, restringe-se à ideia de que os objetos dados à nossa consciência são reais e/ou que é nossa consciência que cria esses objetos - e o mundo - a partir da nossa própria individualidade. Contudo, teorias mais contemporâneas, intersujetivistas, como pós-estruturalismo, neo-estruturalismo, semiótica, semiologia, arqueologia, genealogia, tem constantemente tentado nos mostrar por diversas perspectivas que o que chega a nossa consciência sofre impreterivelmente influência coercitiva de leis, regras, costumes e circunstâncias; imposição, exigência e pressão das múltiplas e diversas relações de poder estabelecidas pelo e no contexto cultural da qual somos parte e co-criadores. Por isso, talvez, o termo pudesse ser redefinido para ethopoiese, no sentido do que "pode vir após", numa transformação de si e do outro, "no sentido - na relação educador/educando - mais de um ethos a ser construído, do que de uma episteme a ser adquirida" - nas palavras de Pagni.