quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ponto de Mutação

Creio que, a essas perspectivas analíticas, considero aqui não tão importante uma análise aprofundada sobre a filmografia, no que tange o espaço temático relacionado às fotografias, cortes de câmera, uso de espaços, qualidade de atuação ou de direção, e relacionados. Embora essas análises sejam de assaz importância – e considerando esse filme em questão, análises muito válidas – aqui me atrevo apenas a analisar rapidamente o embasamento teórico da discussão a que se volta o filme: da grande discussão em torno da vida; da necessidade de uma nova visão de mundo, diante de uma crise de percepção por qual passa a humanidade.
Nele, há três personagens principais: uma física norueguesa, um candidato à presidência dos Estados Unidos e um poeta que foge da agitação da metrópole e do liberalismo selvagem Nova-iorquino.
O candidato, ao tomar conhecimento da atitude da pesquisadora frente à sociedade americana – atitude de repúdio – a instiga a explicar melhor as causas desta postura, comum também a várias outras pessoas da ciência.
Para a cientista Sonia Hoffmann (Liv Ullmann), o pensamento de René Descartes, embora muito útil para a sociedade em que ele viveu, por se afastar do pensamento estritamente religioso medieval para explicar a natureza, muito atrapalha a sociedade atual. Descartes criou o pensamento mecanicista, tido como cartesiano. Esse pensamento explicava a natureza como uma máquina que poderia ser desmontada para ser compreendida. Isaac Newton ainda teria contribuído no pensamento cartesiano quando formulou a três leis do movimento na física, que influenciou as artes, a política e toda a sociedade.
Enxergar apenas as partes e não o todo: esse foi o erro que Descartes cometeu e que contribuiu na construção de nações tão interessadas apenas em suas próprias partes.
O poeta, Thomas Harrimann (John Heard), começa sua discussão sobre um questionamento em que bota em pauta a universalidade e/ou a particularidade do ser humano, quando indaga: “O homem é uma ilha?”.
A cientista explica que o homem precisa estar ligado em algo, precisa se relacionar em sociedade para sobreviver. Ela mostra através da física que apesar de todos nós não percebermos, somos interligados por partículas subatômicas. Trocamos energia o tempo todo. Em termos de micro para o macro não há nada no universo em que não haja interligações ou interconexões. Porém, vivemos atualmente numa “crise de percepção de todas as coisas”, pois normalmente a humanidade só pensa em seus problemas isolados e não consegue perceber que tudo faz parte de um todo: o universo.
Uma frase excelente para ser usada nos discursos do político Jack: “não evoluímos no planeta, mas com o planeta”, nos faz perceber que na prática, um belo exemplo disso seriam os Estados Unidos, criticados por serem a nação mais rica do mundo, que utiliza 40% dos recursos mundiais, com uma população que representa apenas 6% no mundo, conhecida por ser a mais feliz e pacífica, contudo é a maior consumista de drogas do mundo e tem uma das maiores taxas de suicídio também. Como explicar essas contradições? É a idéia de evolução. Ela não ocorrerá isoladamente no planeta, mas com todos os povos, que também são partes do próprio planeta, sem falar da enorme teia que é as relações intra e interpessoais.
Diante das teorias frias e puras da cientista e das idéias práticas do político, a poesia recitada pelo poeta os faz calar e refletir sobre o que suas vidas têm feito nesse processo, sobre como eles têm contribuído com sua parte diante do todo. A razão do pensamento científico passa a fazer sentido no calor das palavras do poeta, ao aproximar-se da vida comum e rotineira das pessoas.
Toda essa discussão bota em questão a validade de se viver nesse contexto considerado “legal”, com lados de escolha oferecidos à sociedade e, entre eles, um, onde a adaptação é se acostumar à tecnologia, ao neoliberalismo, ao conforto e se afundar nos sentimentos egocêntricos; ou optar por ser realmente livre, a partir de si mesmo, dentre as várias opções oferecidas pela fusão das milhões de formas de pensar e agir, a nós oferecidos pela pós-modernidade.

MindWalk, filme de Bernt Capra, Cannes, Home Vídeo, 1990, baseado no livro Turning Point, do físico austríaco Fritjof Capra.


.

4 comentários:

Bela Figueiredo disse...

ãh, que te dizer? fiquei besta. luziu.

Nádia disse...

lembrei de 'quem somos nós?'.
=*

Clarisse disse...

Há quem diga tanta coisa... poetas,fotografos, cientistas, políticos, humanistas etc...
Uns escrevem versos, outros imagens.
Alguns constroem a natureza em fatos dentro de condições exatas de pressão temperatura e luminosidade que só mesmo nos laboratórios seria provável...
Outros ainda fazem caixa dois ou proferem discursos engajados em uma militância muitas vezes inflamada... Há tb aqueles que dedicam suas vidas para construírem bibliotecas...
Se Descartes dividiu e separou a Natureza de Deus, Há controversas, contudo, as leituras cartesianas e o projeto de modernidade faliu, falhou... deu errado. Hoje queremos fundir novamente Deus, ou tudo que não é explicável, à natureza; fazendo do mundo um eterno sonho.
Há quem diga que jamais fomos modernos (Latour), por motivos semelhantes, outros preferem viver numa pós-modernidade...
Mas quem é vc!!! autor desse Blog que quer com bombas explodir as cabeças...e de quem é a poesia postada no comentário da Música do Paulo César Pinheiro: “Paixão” no Blog da Jojo: “Fluindo...”
Desculpe a intromissão e as perguntas... mas adorei a poesia de amor e de mentiras... Queria citá-la, saber o autor...tb escrevo versos.
Bem, já falei demais, espero saber o autor dos versos
Prazer em conhecê-lo... Claqk.

cinco bombas atômicas, em cima do seu cérebro disse...

.

Resposta à Clarisse:

Querida, me add no MSN, ó:

lipe_viana@hotmail.com.

=o)

Aí, te explico de quem é a poesia;

Mando a música dela;

Trocamos palavras cyberneticamente

ao vivo sobre essa modernidade,

pós, ou da inexistência dela.

=o)

Bjo.

.