quinta-feira, 5 de março de 2009

O Absurdo Banquete do Comedor de Amor





Diálogo 34: A Lógica da Impossibilidade




(diálogo sobre a alma, deus, o universo e os sentimentos)







- Se deve pensar o amor em sentido linear?

- Bom, vejo o amor alimite.

- Ãh?


- Alimite num sentido diferente de ilimite, sendo este a ausência do limite em sentido absoluto; alimite seria ausência de limite dentro da possibilidade de liberdade de si em detrimento à liberdade do outro, afinal sempre é necessário sacrificar parte de nossa liberdade para conservar a outra quando não se vive sozinho, que é o caso do ser humano em sociedade.

- Amor é alimite dentro da finitude possível do entendimento prático-racional do humano. O amor é cíclico, como toda a existência. Limitado, se sozinho, precisa de outros sentimentos alimites pra existir plena e essencialmente. Como não nos é capaz de aceitar isso como necessário – de entender a finitude do universo por cíclico e o amor como sendo parte desse ciclo – criamos o conceito de subjetivo, remetendo abstração ao amor, considerando-o único e onipotente, forçando situações dentro de parâmetros moldados pela necessidade criada pela construção social de que fazemos parte.

- Certo, o behaviorismo radical pode ser útil, mas não é suficiente quando se busca explicação para os sentimentos além do processo orgânico do universo. Não se deve negar a essência da existência dos equilíbrios (de energia) naturais (no sentido de natura, physis; mais amplo que o mero sentido de natureza; busca por fazer parte do todo e menos parte do mínimo de tudo).

- Estamos todos sujeitos à mesma diversidade. Por isso somos pura indeterminação, conseqüentemente eternas possibilidades.

- Aristóteles dizia que o mundo tem uma alma que mistura três essências: a indivisível, unidade absoluta do todo inteligível; a divisível, ou multiplicidade, que caracteriza os corpos e seu devir, e uma terceira, intermediária, a existência, que participa das duas primeiras. Aqui daqui que percebemos de onde vem nosso ínfimo momento de existência, presente entre o sono e a vigília.


- A essência da alma, que busca sua epistemologia nos sentimentos, poderia ser representada por numa espécie de corpo do mundo presente no interior dos homens, que coincide com o próprio centro do mundo, em seus movimentos cíclicos se confundindo; está aí a manifestação inquieta dos sentimentos em extremos buscando harmonia.

- Diferente das concepções da filosofia e da física antigas sobre o mundo, os sentimentos impossivelmente se regeriam por razões matemáticas, porque escapam à noção de matéria ou elementos que preexistam a uma ação possivelmente explicável pela organização mecânica.

- No nosso mundo reina a contingência, o acidente e o acaso!

- Acidente pré-necessário, a descontinuidade é a norma do movimento, mesmo ele sendo regular. Essa busca do amor pelo regular é que transforma em chama incendiária todo o coletivo-interno do ser, o tempo todo em explosão, porque somos eternas buscas insatisfeitas pelo desejo.

- O universo Einsteiniano expõe a proposta de que a estrutura do campo gravitacional é determinada pela massa e pela velocidade do corpo em gravitação. A geometria do universo, a curvatura do contínuo espaço-tempo, por ser proporcional à concentração de matéria que contém, será determinada pela totalidade da matéria contida no universo, que o faz lógica se descrever numa imensa curvatura que se fecha em si mesma. Embora não seja possível dar uma representação gráfica desse universo finito e esférico, foi possível calcular, em função da quantidade de matéria contida em cada centímetro cúbico de espaço, o valor do raio do universo (avaliado em 35 trilhões de anos-luz). Nesse universo finito, mas grande o bastante para conter bilhões de estrelas e galáxias, um feixe de luz, com a velocidade de 300.000km/s, levaria 200 trilhões de anos para percorrer a circunferência do cosmo e retornar ao ponto de partida. O tempo-vida do universo ou mesmo o seu tamanho finito está tão absurdamente fora da capacidade de percepção prático-racional, que se torna insuscetível à concepção humana de espaço-tempo.

- E a essência da alma está no mesmo patamar: o amor, inexorável a qualquer noção dessa magnitude, finito se torna infinito pela complexidade objetivo-perceptiva. Diferentemente do universo, que se pôde calcular numa idéia de tamanho, não há possibilidade de se calcular qualquer ínfimo espaço cúbico da alma. Nesse sentido, talvez os sentimentos fossem o grande mar incolor atemporal de fogo e gelo, onde repousam o(s) universo(s) possível(s).

- Se assim é, será que se vivêssemos 200 trilhões de anos, passaríamos pelas mesmas situações? Relacionaríamos-nos com as mesmas pessoas, num ciclo infinito da re-experiência dentro da própria finitude espacial do ciclo?


- Está aí uma situação fora de qualquer possibilidade de percepção empírica. Seguindo a lógica dos sentimentos estarem dentro do universo, chegaríamos à conclusão de que não existe sentimento infinito, porque tudo repousa dentro desse universo circular. Já observando pelo prisma de os sentimentos estarem além desse universo possível imaginável de Einstein, sendo os sentimentos o grande mar onde repousa tal universo, conceberíamos a idéia que abarca a lógica da existência de um deus (no sentido de ser superior a tudo e a todos, jogador no tabuleiro da vida onde os homens são suas peças primordiais) igual à idéia da alma. Sendo a alma (constituída pela tentativa de equilíbrio dos sentimentos) formadora da essência de tudo – o corpo do mundo dentro dos homens –, da mente em seu uso completo, há a possibilidade de remetermos que deus (qualquer que seja: ele, ela, singular ou plural) simplesmente está dentro do logos de cada um: o corpo do mundo (deus) dentro dos homens (na sua alma, tentativa de harmonia dos opostos dentro da própria mente humana).

- Einstein admitia que a velocidade da luz não é afetada pelo movimento da Terra, mas rejeitava antigas teorias que distinguiam o movimento absoluto do movimento relativo. Se a velocidade da luz é constante e se propaga independentemente do movimento da Terra, também deve ser independente do movimento de qualquer outro planeta, estrela, meteoro, ou mesmo de todo o sistema do universo.

- As leis da natureza, conseqüentemente, são as mesmas para todos os sistemas que se movem uniformemente, uns em relação aos outros.

- Então, em relação ao que se sente, avaliando dentro da impossibilidade de prova prático-humana, os sentimentos subjetivo-abtratos deveriam então seguir essa mesma regra? Mas considerar um todo relativo num é absolutizar o que seria mesmo relativo?

- É, eliminando o espaço e o tempo absolutos, o universo todo entra em movimento, não tendo mais sentido indagar pela velocidade ou existência "verdadeira" ou "real" de qualquer sistema, porém, não negando também uma possibilidade de relatividade, e sim, negando o significado de uma absolutização do relativo ao generalizar o termo.

- O espaço einsteiniano não tem fronteiras nem direção, e não apresenta nenhum ponto de referência que permita comparações absolutas, pois não passa "da ordem da relação das coisas entre elas", como já dissera Leibniz. O que leva a concluir que, sem coisas que o ocupem e nele se movam, não há espaço absoluto nem relativo.

- Então você quer dizer que os movimentos, sejam eles quais forem, só podem ser descritos e medidos uns em relação aos outros, uma vez que tudo é conceito?


- É. Pois é. Acontece o mesmo com os sentimentos. Quando sentimos o calor do que determinam de amor dentro do núcleo da alma, percebemos que os movimentos que ele nos proporciona – inquietudes, desejos, ciúmes, vontade de posse, concorrência natura-animal, sejam mais quais forem – só podem ser descritos e medidos uns em relação aos outros. Por isso os sentimentos, tão subjetivos, são arrelativos.

- Ou seja, nem relativos nem absolutos.

- É. A movimentação dos sentimentos funciona como a mecânica celeste, só que de forma geralmente desorganizada para poder se equilibrar com a própria existência do planeta; movimento esse praticamente quase sempre em equilíbrio.

- Pois é, existem tantas estruturas aparentemente interdependentes no espaço, que acabam por depender intrinsecamente umas das outras, como um grande corpo uno em movimento perfeito.

- Assim como o espaço métrico gravitacional e o espaço eletromagnético universal são intoleráveis ao espírito teórico, os sentimentos precisam de práxis constante pra queimar e manter a alma viva. Ali e aqui existem os desequilíbrios, mas quanto menor ou mais subjetivo é o corpo – ou a idéia de, como amor, ódio, piedade – maiores e em menos duração se apresentam os desequilíbrios.

- Ah... idéia de amor...

- Então os sentimentos seriam metafísicos?

- Segundo uma definição de Ludwig Wittgenstein, a experiência metafísica é algo que se encontra além do reino da linguagem, já que haveria coisas que podem ser ditas e coisas que só podem ser mostradas.

- Quando nos tratamos a falar de sentimentos, percebemos o quanto inexplicável é, ao modo da linguagem ou da teoria, demonstrar o que seria o amor. O problema primeiro está já na definição em si.


- Então é impossível definir sentimentos fora dos padrões lingüístico-morais – impossível definir qualquer coisa fora desse padrão, na verdade – porque observando a seguinte relação: essência da alma e do universo último possível versus os sentimentos, a forma menos complexa de se tentar entender a magnitude energética desses pólos tão extremos, subjetivo-abstratos é nessa lógica do impossível: conhecer e conceber um infinito dentro de um finito, sendo ambos abstratos (sentimentos – delimitados, alimitados – e universo – infinitamente gigante, mas infinito dentro de uma própria finitude).


- Seguindo essa relação, há de se perceber que talvez a única idéia metafísica no mundo seriam os sentimentos, pois nem o deus comum dos homens está fora do universo. No máximo ele o é. Sendo os sentimentos a proposta do mar onde flutuam o possível universo finito, seguindo a lógica da impossibilidade da percepção espaço-tempo possível suscetível ao homem, o amor seria sim, metafísico. Contudo, se continuarmos no raciocínio de que tudo é movimento circular, desde os meros átomos e suas partículas divisíveis, planetas, estrelas, galáxias, até chegarmos ao grande vácuo chamado de Universo, há de se perceber que qualquer coisa que vier a posteriori seguirá a mesma lógica, estando cada vez mais distante a possibilidade de percepção humana do que seria o amor, conseqüentemente considerando assim que “algo subjetivo” é algo de dentro. Irreconhecível e, por isso, por vezes incontrolável.

- Mas explosões também fazem parte da ordem dita harmônica dos entes do universo. Deveria ser diferente com os sentimentos se eles estivessem aquém do universo?

- Veja, esse é o ciclo. Desprenda-se da concepção de ciclo anexa à idéia de círculo. O círculo por círculo só é linear dentro de uma concepção. O ciclo a que me refiro é a fórmula lógico-impossível (teórico-abstrata) do círculo sendo a ordem perfeita do universo e suas explosões extremas versus ordem imperfeita dos sentimentos e suas explosões extremas.

- As explosões existem para mediar a perfeição e a imperfeição. Como não há harmonia na explosão em si, encontramos então um quarto termo na dialética do amor: uno (primeiro termo = harmonia) versus múltiplo (segundo termo = desarmonia) = explosões (terceiro e quarto termos unidos = extremos), que se dão através da desarmonia (que são as próprias explosões, que é o múltiplo em busca do uno).

- Então o ciclo tri (finito) – tetra (infinito) dimensional se dá: múltiplo (desarmonia) versus uno (harmonia) = explosões (uno e múltiplo ao mesmo tempo, unidos e separados – universos e sentimentos) que buscam a harmonia, mas que se completam no uno através das explosões, que buscam a harmonia; mas que se completam no uno através das explosões, que buscam a harmonia... que se completam...

- O problema é que não é possível perceber quando o terceiro e o quarto termo estão juntos ou separados. Esse interlúdio seria o lapso de tempo espacial (desconhecido, abstrato) que caracterizaria a essência da existência, que chamo de alma.



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2 comentários:

, nuns teus ais disse...

-

Por isso somos pura indeterminação, conseqüentemente eternas possibilidades.

de fato, saudade.

Bruna Lenzo disse...

Enorme isso. Quase um tratado.
=)
Mas lindo.
Quero tu falando essas coisas no meu ouvido de noite.
Mais lindo ainda.
(=

B.L.